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"Nenhum pessimista jamais descobriu os segredos das estrelas, nem velejou a uma terra inexplorada, nem abriu um novo céu para o espírito." (Helen Keller) - blog de Marco Poeta

O elogio envenenado

por Marco Poeta

O elogio envenenado

Kurt Jacobs

“Admiro/a! Apesar da sua deficiência…”

Quando estas palavras vêm à conversa, o visado deve ficar de ouvido à escuta. Em regra, as pessoas portadoras de deficiência não querem ser admiradas por isso, nem se sentem heróis. Basta-lhes perfeitamente ser aceites e tratadas como pessoas normais. Muitas vezes é tudo menos fácil descortinar a inferiorização oculta por trás do suposto louvor – do elogio envenenado. Só após momentos de reflexão, despoletada por uma sensação de desconforto, é que tomamos conhecimento dessa inferiorização: na frase “Admiro-o! É cego e orienta-se tão bem” esconde-se a presunção de que as pessoas cegas são seres desorientados e dependentes. Também a frase “Admiro-o! Apesar de cego conseguiu até ser professor” insinua a convicção de que as pessoas cegas apenas são capazes de executar trabalhos indiferenciados.

Outro elogio envenenado está contido naquilo que designo por “teoria da joia de ouro”. Ela não tem relação direta com a pessoa deficiente, mas sim com o conjugue ou com quem lhe presta assistência. Em festas de aniversário e ocasiões similares o mais provável é vir um familiar ou amigo dizer-me: “Sabes, Kurt, é enternecedor ver as atenções de que a tua mulher te rodeia. Ela é uma joia para ti! Vale ouro! “

Este comentário engloba duas mensagens envenenadas, lesivas da autoestima, das quais, as mais das vezes, quem expressa não tem consciência. Uma é a convicção de que eu, sendo cego, bem posso levantar as mãos aos céus por ter encontrado uma mulher. A outra é que devo estar grato à minha “joia de ouro” por me tratar com tanto carinho; de contrário o que é que seria de mim se vivesse sozinho, homem cego supostamente sem autonomia? Note-se que nunca ninguém disse à minha mulher que ganhou uma “joia de ouro” por me ter como marido. Por isto se vê que os dotes da personalidade de uma pessoa cega raramente são tidos em conta, uma vez que ficam encobertos pelo “destino trágico da cegueira”.

Em conclusão deixo apenas um conselho: ignore estas mensagens em parte irrefletidas e ambivalentes; ou, melhor ainda, converse a respeito delas com quem, por ignorância, lhas passa. É que, intencionalmente ou não, tais afirmações enfraquecem a autoestima e são, serão sempre o mal que se diz por bem.

Tradução de Ana Maria Fontes.

Fonte: Die Gegnwart

Comentários

Olá Marco !

Elogios desses a gente dispensa ... já chega o facto de sermos constantemente discriminados, e agora tb elogios desse género ? dispenso por completo !
Apenas admito elogios sinceros, de coração ... mas tb não gosto de ser tratado como herói, sou um apenas uma pessoa mais sensível, mais nada looool

Abraços

Olá Filipe!

Todos gostamos de receber um elogio de vez em quando, mas quando nos elogiam por pena ou por admiração de sermos capazes de fazer coisas normalíssimas, aí nós dispensamos completamente esses elogios.

Pessoalmente gosto de receber um elogio quando sei que é verdadeiro e não por as pessoas só me conhecerem pelas minhas limitações. Porque com o tempo elas vão me conhecendo melhor e passam a ver-me como qualquer pessoa e não como um herói ou um coitadinho.

Há pessoas que não conseguem imaginar uma vida para além da visão e da audição, por isso ficam boquiabertas quando se cruzam com uma pessoa surdocega inteligente, autónoma, que sabe escrever tão bem, que fala tão bem, que escreve poemas tão bonitos, que estudou na universidade, que já namorou, que tem uma vida tão normal como os outros: tem amigos, gosta de dançar, que tem facebook, etc, etc.

Mas depois esse fascínio dá lugar ao conhecimento real da pessoa real que eu sou, essencialmente igual aos outros.

Porém, temos de mostrar aos outros sempre o que somos, porque as nossas qualidades e defeitos são as duas faces da mesma moeda. E e é assim que conhecemos os nossos amigos e os que nos querem, aceitando-nos pelas nossas semelhanças e diferenças.

A discriminação é muitas vezes fruto da falta de conhecimento mútuo e de já termos antecipadamente formado uma opinião sobre os outros mesmo antes de os conhecermos realmente. Isto aplica-se a todos, incluindo a nós.

Abraços

Olá Marco !

Toda a gente gosta de receber elogios desde que sejam verdadeiros, e nós nesse aspecto não somos diferentes, porque apesar da deficiência, ambos temos o direito de sermos bem tratados tais como os ditos normais ... !

Por outro lado tb é importantíssimo o nosso testemunho, se alguém diz um elogio envenenado, temos o dever de cordialmente a chamar à atenção, e à segunda vez ela já irá pensar 2 vezes antes de dizer qq coisa ... !

Pois é, há pessoas q ficam super admiradas como fulano cego ou sicrano surdocego conseguem fazer tantas coisas, e esqueçem-se q somos apenas diferentes, mas q conseguimos por A + B fazer exactamente o mesmo ou o mais apróximado ... !

Claro, e eu mostro sempre quem sou, com as minhas qualidades e defeitos, e não tenho medo de dar a cara ... mtas desssas coisas eu aprendi na Fraternidade ... !

Abraços

Olá querido amigo!

Os elogios quando se referem à nossa pessoa e não à nossa deficiência são muito positivos para a nossa autoestima, especialmente quando vindos de amigos e da família.

Quando são pessoas que não nos conhecem bem, é normal que no início fiquem fascinadas ou incrédulas por sermos pessoas alegres, com garra, com um emprego, uma família, etc, etc. Porém, devemos explicar-lhes delicadamente que os verdadeiros deficientes são aqueles que tê todas as capacidades no seu sítio mas que não lutam pelos seus objetivos. Se soubermos explicar que existem muitas formas de adaptação para além da visão e que todos, incluindo os normovisuais, podem desenvolver mais as suas capacidades deixa de ser extraordinário e passa a ser natural do ser humano.

É mentira quando dizem que os cegos têm a audição mais apurada do que os ditos normais. O cego apenas está mais concentrado nos sons que o rodeiam e, com o treino auditivo, consegue orientar-se sozinho, reconhecer as pessoas só pela voz, reproduzir uma partitura de piano só de ouvido, etc, etc.

Tal como é mentira dizerem que os surdocegos não percebem as emoções das pessoas e verem o seu interior. A minha intuição está sempre certa e o que pressinto é o que as pessoas sentem. Nem é preciso que falem ou que eu veja as suas expressões faciais. Eu sinto e parece que adivinho.

O que importa realmente é a nossa pessoa e não o fascínio dos outros que acham que somos macacos de circo que fazem umas habilidades fantásticas e do outro mundo.

Mas em vez de nos enfurecermos e sermos grosseiros, devemos saber dialogar e ajudar os outros a compreender que nada do que fazemos é impossível ou sobrenatural.

Forte abraço

Olá querido maninho l

Certíssimo, concordo em grau e género com o q dizes looool

Claro, trata-se de tar mais concentrado nos sentidos q ainda possuem ... !

Mtas vezes não é preciso dizer nada para se sentir com fulano ou beltrano tá, se tá triste ou rissonho, de facto e por experiência própria, existem mtas coisas q sentimos q sem dizer nada revelam o estado de espírito da pessoa, como ela é ... ! lool

Abraços