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"Nenhum pessimista jamais descobriu os segredos das estrelas, nem velejou a uma terra inexplorada, nem abriu um novo céu para o espírito." (Helen Keller) - blog de Marco Poeta

Conversando com a Noite

por Marco Poeta

Conversando com a Noite

Olá Noite.

Sinto-me rodeado da calma noturna e pela minha janela aberta o ar fresco do campo faz-me sentir mais leve.

Contudo, sinto-me pesado e é sobre esse peso que eu te quero falar.

Ouças-me ou não, fico a falar, a falar e a falar até talvez uma ideia ilumine o meu triste caminho…

Já te confidenciei muitas e muitas vezes até o saberes de cor e te fartares de me ouvir que gostaria de ver as cores vivas da vida, algo muito colorido, melhor que o monótono preto, branco ou cinzento.

Queria ver de novo o azul do céu muito limpo, o verde eterno dos campos como lagos de suave ondulação, o sol dourado e alaranjado quase cor-de-rosa, a estrada de terra escura quase cor do tijolo nos dias de chuva...

Pudera que em vez de te ver a ti eu visse um lindo e luminoso arco-íris com todas as cores da felicidade.

De tanto te ver como uma triste e encolhida sombra cansei-me completamente. Apagas as cores e as luzes como se eu estivesse dentro de uma sala de cinema sem a tela ou com ela toda em branco.

Porra, só quando estou a sonhar dou comigo a viver pequenas histórias meio esquisitas que nunca vi antes, mas com cores nítidas, algumas mais nítidas que outras. Ou dou comigo a ver a minha vida andar para trás até as cores aparecerem mais ou menos como eram antes.

Depois de muitos anos a viver contigo, Noite, aprendi muitas coisas, mas nem tudo o que aprendi contigo foram coisas boas.

A primeira coisa que aprendi foi que a escuridão não era negra de breu como nos filmes de terror. Ela é branca como uma nebulosa bola de cristal e não dá para enxergarmos através dela o nosso futuro. Às vezes esse branco é tão intenso que julgo que é uma luz a cegar-me, talvez essa luz radiosa do Céu, puríssima como a neve e cujos reflexos cegam a vista humana.

Também acontece e com alegria minha que vejo uma cor amarela, como se um fogo com labaredas vacilantes existisse em torno de mim.

Fantasia.

Eu vou dizer-te o que realmente vejo sem embelezar nada.

Tanto com os olhos fechados ou abertos, vejo a mesma coisa, as mesmas cores tristes e sem significado.

Que coisas encantadoras posso retirar delas?

No entanto, impressiona-me que a Helen Keller tenha escrito um poema chamado Canto à Escuridão em cujos versos ela dizia que a Noite era bela, sagrada e sábia. Ela que deixara de ver com apenas um ano e seis meses contava nos seus versos que antes das luzes, dos pensamentos e de tudo o que vemos à nossa volta existia apenas a escuridão.

Era essa escuridão, vaga e misteriosa, a origem do espírito das coisas.

Então pus-me a pensar que tu, Noite, és mais poderosa e velha do que a Luz... És, portanto, mais sábia e secreta, o enigma dos enigmas, o lado mais profundo de Deus.

Até parece que gosto mais de ti assim, mas continuo com o interior cheio da tua escuridão, do teu mistério, que me sinto doido de tanto pensá-lo. Preferivelmente, desejaria algo que toda a gente nem tem de se preocupar com aquilo que vê. Basta que seja uma coisa alegre, que faça rir ou que não nos tire a esperança.

Mas eu aprendi uma segunda coisa: caminhar na escuridão, metade dobrado ou de rastos, é inútil, é humilhante, é fraqueza de mais, é morrer prematuro, é dar razão aos piores conselhos de um condenado.

Aliás, aprendi algo que me salvou desta precipitação para o abismo: uma nova esperança de conseguir ser mais forte do que a minha limitação.
E para isso tinha de lutar para não me sentir ir ainda mais baixo na vida. Senti coragem e determinação com a Helen Keller, surdocega como eu, mas capaz de lutar por qualquer coisa ao seu alcance. Com ela aprendi que, embora a sociedade seja muito discriminatória e preconceituosa, todos são seres humanos iguais e que sabem partilhar o amor, a sabedoria e o que cada um é de mais especial.

Os que desconhecem a escuridão e julgam que o cego não pode sentir nada de belo e vital com o seu coração são eles próprios cegos, porque as coisas mais belas não estão no que vêem mas nos seus corações.

E agora, Noite, a coisa mais importante que aprendi e que nem tu mesma me ensinaste: na hora mais aguda e real da nossa existência há sempre uma saída positiva visível se a nossa mente não estiver de todo absorvida e emaranhada na tristeza. Nem a Noite que nos parece interminável e se estreitar contra nós, quase nos esmagando, é completamente fechada, nem a sua sombra nos pode lançar no vazio.

Temos o dom da razão e podemos descobrir maneira de irmos subindo por cima dos problemas sem imediatamente ficarmos enlouquecidos e fazermos algum disparate.

Sou cego e o que eu penso é que sou a própria luz e as próprias cores da felicidade, porque se for fazendo a minha vida naturalmente sem demasiadas angústias ou bloqueios emocionais mais serei eu mesmo, forte como um Aquiles, um verdadeiro sobrevivente de uma escuridão que não deve ser evitada mas apreendida pelo seu lado mais positivo.

Marco Branco

Comentários

Olá Marco !

Tu conversas com a noite e ficas a pensar .... e eu vou prá noite curtir bué e só chego a casa de madrugada hehehehe

Mano, embora não funcionem em ti a audição e a visão, tens todos os restantes sentidos loool
Nada de desanimar mano, força para a frente q atrás vem gente loool
Claro q momentos maus toda a gente passa, mas já lá foi, não vem mais ao acaso ...

Grande Abraço

Olá grande maninho!

Fazes muitíssimo bem em curtir a noite, porque ela é bela e tem a sua magia!

Eu sou mais um filósofo que procura luz para o seu entendimento sobre a vida. Não penso apenas na noite, mas também noutras coisas mais alegres e positivas. Porque sabias que a alegria só faz sentido depois de vencermos a tristeza e compreendermos o quão curta é a vida.

Por isso é que fazes bem em aproveitar tudo o que a vida tem de bom. E eu sei que tenho outros sentidos extremamente valiosos que compensam grandemente a minha vista e audição. E foi filosofando sobre a noite que entendi que existia uma infinidade de coisas belíssimas invisíveis aos olhos, mas visíveis ao coração e aos outros sentidos!

Grande abraço

Olá querido maninho !

Claro q sim, a vida é bela e curta demais, temos q a aproveitar bem looool
Lá isso é verdade as noites tẽm a sua magia, e algumas têm mesmo mta magia hehhehehe

Claro q tens os outros sentidos muito apurados, e tenho um mano mto filósofo looool
A vida é feita de altos e baixos, e o melhor q fazemos q nem sempre é fácil, é amenizar as tristezas, e dar mais destaque às alegrias na vida ... pq mano temos mtos motivos para sorrir looool

Grande Abraço