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O que fica de Helen Keller

por Lerparaver

LIGA PORTUGUESA DE PROFILAXIA SOCIAL

Por: José António Lage Salgado Baptista

Publicado na revista “POLIEDRO” ao longo do ano de 1980

Nota da “LERPARAVER”: Este artigo foi objecto de uma conferência realizada em 1968. A sua publicação na “POLIEDRO” insere-se na comemoração do centenário do nascimento de Helen Keller

Conferência realizada no Clube Fenianos Portugueses

Em 22 de Novembro de 1968

Publicado originalmente no Porto - 1969

PRÓLOGO

No prólogo do caderno cultural n.º23 da Liga PORTUGUESA DE PROFILAXIA SOCIAL em que se publicam duas conferências - «MENSAGEM DE HELEN KELLER» e «A FUNDAÇÃO SAIN E A REABILITAÇÃO DE PESSOAS CEGAS EM PORTUGAL» — proferidas na nossa Tribuna pela Sr.ª D. Maria Lúcia da Silva Rosa, tivemos oportunidade de sumariar a vasta acção desenvolvida por esta instituição em prol da educação, reabilitação e reconciliação com a vida dos cegos, em Portugal.

A conferência proferida em 22.11.1968 na mesma tribuna pelo Sr. José António Lage Salgado Baptista, estudante universitário e ele próprio cego, subordinada ao tema «O QUE FICA DE HELEN KELLER» e que agora publicamos, insere-se nesse esforço, que a Liga Portuguesa de Profilaxia Social não descura, de chamar a atenção dos Poderes Públicos e dos Particulares para o problema dos cegos.

São muitos os milhares de cegos que, por esse País fora, necessitam de providências para a sua readaptação à vida económica e social. Eles podem, em muitas dezenas de actividades, contribuir para o progresso da economia nacional. Eles podem, pelo seu trabalho, adquirir uma independência digna, que lhes advirá da obtenção de meios próprios de sustentação – deles e das famílias.

Não é só às entidades oficiais que cabe o dever da resolução do grave problema. Todos nós temos responsabilidades, pela solidariedade que é devida ao nosso semelhante incapacitado e infeliz. Não esperemos tudo da benemerência sob a forma de asilo ou de esmola. Os cegos – se não todos, pelo menos a maioria – podem ser recuperados socialmente. É isso o que fundamentalmente interessa, porque também envolverá a sua promoção moral e espiritual.

Bem merecem os cegos tudo o que se faça para minorar a sua situação e os enquadrar numa vida activa e em trabalhos proveitosos que os libertem da esmola. Têm direito não à generosidade mas sim à solidariedade que os sãos fortes devem aos diminuídos fisicamente ou fracos. A caridade, que durante muitos séculos foi o meio de corrigir os efeitos da desventura, foi ultrapassada pelo dever de uma solidariedade que o progresso social impõe.

Se tantos homens, infelizmente, no nosso tempo tanto se empenham em criar meios de divisão e de aniquilamento, só um caminho se abre aos demais, que são a maioria: o do auxílio aos que, como os cegos, nenhumas culpas têm da desgraça em que foram lançados e com razão reclamam a solidariedade dos que podem e devem ajudá-los. Por esse modo, sim, haverá motivo para dizer que a Humanidade progrediu e cumpre os deveres que o espírito cristão determina.

Os Directores

Perfil de Helen Keller e significado do seu caso

Na sua juventude Helen Keller era uma moça alta e graciosa, atraente e dotada de uma simpatia que a todos conquistava. Tinha uns cabelos de oiro e olhos azuis, brilhantes, vivos e expressivos; nariz quase direito, boca nobremente desenhada, queixo pequeno mas firme e, dominando o conjunto, a fronte alta e quadrada, que atraía e detinha a atenção. Adorava as crianças e interessava-se muito por adornos e vestidos, sabendo descrever os dela e os da sua professora com aquele colorido e requinte de pormenores de que só as raparigas são capazes. A sua existência era encantadoramente feminina - vida inundada de amor, de lágrimas e de poesia! dizia ela que todas as suas visões brotavam do amor e da poesia e que essas flores não podem vicejar sem lágrimas.

Tinha uma vida mental particularmente activa. Dedicava-se à meditação, à leitura, à conversação com os seus íntimos, à correspondência e aos seus trabalhos literários. No dia a dia de Helen Keller não havia lugar para a ociosidade nem para o tédio.

Em 1956, durante uma viagem de férias pela Europa, a ilustre escritora e pedagoga norte-americana visitou Portugal, tendo permanecido em Lisboa cerca de uma semana. Recebeu entre nós inequívocos testemunhos de apreço e deu uma conferência de imprensa na biblioteca da Embaixada dos Estados Unidos. Além do Embaixador e de outras entidades ligadas aos Serviços Culturais e de Imprensa, assistiram muitos jornalistas, numerosas senhoras, estudantes, filiadas da Mocidade Portuguesa, etc.

Helen Keller apareceu elegante e distinta, toda vestida de azul e um pequeno chapéu de palha adornado de florinhas também azuis. Era uma mulher de aspecto saudável, de faculdades altamente desenvolvidas, que usava o sorriso como arma de captação de simpatias. Tinha um temperamento emotivo, vivaz, quente e sujeito a breves exaltações. A fé e o entusiasmo continuavam a ser a tónica do carácter dessa septuagenária simpática e alegre, sempre viva e interessada por tudo o que a rodeava.

Interrogada sobre a sua estadia na cidade e as impressões que colheu, não se negou a dar pormenores. Percorreu as avenidas, entrou nas igrejas e subiu aos miradouros; passeou pelos bairros populosos, foi ao mercado, apalpou hortaliça e mexeu em postas de bacalhau. Sentiu, bem perto de si, a ternura, o carinho e a bondade do nosso povo humilde e anónimo.

Tratava‑se, realmente, de uma criatura culta, senhora de si e à altura de qualquer situação.

Não podemos continuar sem dizer que Helen Keller era cega, surda e muda desde a mais baixa infância. A maneira como esta tripla deficiência foi compensada, que lhe permitiu viver uma vida tão normal como aquela que deixamos entrever, atraiu para Helen Keller um interesse cada vez maior, primeiro nos Estados Unidos e depois no mundo inteiro. Desconheciam‑se possibilidades de recuperação para os cegos‑surdos, que se supunham irremediavelmente isolados do mundo que os rodeia; tão pouco se tinha uma ideia clara sobre a gravidade das limitações a que tais diminuídos estão sujeitos.

Este desconhecimento e aquele interesse fizeram surgir uma série de paradoxos sobre Helen Keller. Ela foi apelidada de «deusa», «santa» e «arcanjo surgido das trevas». Disse‑se que nasceu cega, surda e muda; que nunca foi triste, desanimada ou pessimista; que se esforçou com celestial energia para ser feliz.

Ao lado destes exageros e imprecisões apareceram erros de maior repercussão. Afirmou‑se que se educou por si mesma, em desafio à consciência de Helen Keller, que levou a sua gratidão ao ponto de escrever um livro sobre a professora. Espalhou‑se que ela conseguia distinguir as cores e até ouvir telefonemas, como se impressões especificamente visuais e auditivas pudessem chegar‑lhe por outras vias.

Mas as informações inexactas atingiram até o campo científico, que a imaginação dos fantasiosos não explora. Assegurou‑se que Helen Keller possuía o «sentido dos obstáculos», quer dizer, que tinha essa espécie de sexto sentido que permite aos cegos evitar acidentes quando se deslocam em casa ou na rua. Esta faculdade - que ainda não foi explicada de maneira satisfatória, mas se verificou experimentalmente em centenas de cegos é raríssima nos cegos-surdos. Pierre Villey, no seu livro «Le monde des aveugles», diz que Helen Keller lhe escreveu directamente, afirmando que não possuía o «sentido dos obstáculos».

Deve‑se reconhecer, entretanto, que a informação defeituosa que corre sobre Helen Keller é, em parte, obra sua. Os seus livros estão repletos de imagens visuais e auditivas, que abrem a porta à especulação e não podem ser explicadas unicamente pela vaidade literária ou por esse desejo próprio dos deficientes de participar em todos os bens da humanidade.

Helen Keller foi constantemente vítima das palavras ou, melhor dizendo, vítima dos seus sonhos. Frases inteiras lidas em braille ou recebidas através da linguagem táctil apareciam frequentemente na sua conversação ou nos seus escritos, sem que ela pudesse estabelecer uma demarcação rigorosa entre o que era seu e o que era alheio. Aos dez anos, no «The Frost King», plagiou inconscientemente um pequeno conto que outrora alguém lhe havia lido. O seu desespero foi grande quando a acusaram de querer enganar os amigos e admiradores.

A tendência dos cegos para o verbalismo é um perigo que os tiflopedagogos devem ter sempre presente e foi em Helen Keller o ponto fraco de uma maravilhosa educação. As emoções feitas apenas de literatura ocuparam nela um Iugar verdadeiramente desconcertante para uma inteligência tão privilegiada.

Seria necessário um trabalho crítico muito rigoroso para corrigir o psitacismo de Helen Keller e nem sempre houve tempo para ele. A pedagogia verdadeiramente revolucionária da professora que a tratava como a uma criança normal, o progresso vertiginoso que realizou na aquisição da linguagem e a publicidade que desde os 10 anos se fez à volta do seu caso inebriaram essa menina singular que precisaria de mais tempo para meditar e conhecer‑se meIhor a si própria.

Até por estes factos nos apetece recordar aqui o que em outras ocasiões já dissemos àqueles que têm responsabilidades na formação da opinião pública. Salvo as devidas excepções, os jornalistas que abordam os problemas dos cegos ou de outros diminuídos servem‑se de sonoras frases feitas dirigidas à sensibilidade do seu público, em que o desconhecimento das questões específicas é bem patente. Daí resultam paradoxos como aqueles que referimos a respeito de Helen Keller. É preciso estudar os problemas a fundo e expor com objectividade, se se quer fazer alguma coisa realmente útil a favor dos inferiorizados de qualquer espécie.

O Dr. Henrique Moutinho, em palestra que proferiu no Rotário Clube de Lisboa e repetiu mais tarde no de Vila Franca de Xira (1961), diz que o caso de Helen Keller não é um milagre, mas que representa uma grande lição, da qual têm beneficiado, em maior ou menor grau, alguns milhares de seres humanos. E acrescenta que o que mais nos interessa é o trabalho de Ana Sullivan, na medida em que ele demonstra o valor da técnica, da vontade e do amor pelo nosso semelhante, quando aliados ao serviço da recuperação dos inferiorizados sensoriais.

O Prof. Albuquerque e Castro, num artigo alusivo ao 1.° centenário do nascimento de Ana Sullivan e publicado em «Poliedro» (1966), reconhece que em todo o processo pedagógico desenvolvido por Ana Sullivan tudo é objecto de meditação e ensinamento.

A própria Helen Keller, no seu livro «Teacher», recordando os métodos da sua professora, faz notar que uma pessoa fisicamente incapacitada só vem a conhecer as suas forças ocultas quando é tratada como um ser humano normal e encorajada a amoldar a sua própria vida. Por isso — porque Helen Keller foi tratada como um ser humano normal e conheceu as suas forças ocultas e pôde desenvolvê‑las de tal modo que de criança selvagem veio a transformar‑se numa glória dos Estados Unidos da América —, é que os amigos esclarecidos dos cegos se voltam para Ana Sullivan à procura de conselhos e sugestões.

Como Henrique Moutinho, como Albuquerque e Castro, como todos os amigos esclarecidos dos cegos, vamos também nós voltar‑nos para Ana Sullivan. Procuraremos saber as dificuldades que teve de enfrentar e a maneira como as venceu e tiraremos as conclusões que se imponham no que directamente diga respeito à emancipação social dos cegos portugueses. Se se fizer alguma luz sobre os múltiplos problemas que interessam aos nossos cegos, poderemos dizer que Helen Keller, mesmo depois de morrer, continua a dar vida às causas nobres.

II

Problemas especiais dos cegos‑surdos

Convém que saibamos alguma coisa a respeito dos cegos‑surdos, e sobretudo a respeito das suas possibilidades intelectuais, já que Helen Keller se afirmou como valor precisamente no domínio da cultura.

É errado supor que os cegos‑surdos estão completa e definitivamente isolados do mundo que os rodeia, que eles são como que um espírito subjugado por uma muralha de carne, um cofre que permanecerá sempre fechado – embora possa estar vazio ou possuir um tesouro. Os sentidos restantes e uma educação apropriada podem vencer o isolamento. A coisa não é difícil de entender, se estivermos dispostos a pensar.

Toda a gente sabe que a pessoa cega recebe através do ouvido e do tacto preciosas indicações, que lhe permitem contornar muitos dos obstáculos levantados pela falta de vista. Não se trata de possibilidades específicas nem há mesmo sensibilidade acima do normal. O vidente pode ter os outros sentidos tanto ou mais apurados do que um cego, mas não os explora da mesma maneira, porque não necessita disso. Acontece até que lhe passam despercebidas algumas impressões auditivas e tácteis de que o cego se serve, já que a vista as esconde à sua consciência.

Igual fenómeno se dá, em grau diferente, com os cegos‑surdos. Atrás dos sons, e encobertos por eles à consciência dos que ouvem, há impressões tácteis e olfactivas do maior valor, que muito podem ajudar o indivíduo. Os cegos‑surdos sabem, por si mesmos e através das vibrações, que um batalhão passa na rua, que uma porta se abre ou se fecha, que alguém avança na sua direcção.

O olfacto pode ser‑lhes também muito útil para conhecer as pessoas ou familiarizar‑se com o ambiente. Para Helen Keller, por exemplo, cada um tinha um perfume particular.

Entretanto, não tentemos iludir o problema. A combinação da cegueira e da surdez levanta à normalização do indivíduo obstáculos muito difíceis de transpor. A falta de visão impede‑lhe o contacto directo com muitos objectos, empobrece a imaginária do seu espírito, restringe‑lhe as possibilidades de deslocação, etc. A falta de audição dificulta a aquisição da linguagem. Mesmo quando o indivíduo perde a audição mais tarde, há uma regressão na variedade das palavras usadas. Estas duas deficiências em conjunto, e cada uma por seu lado, isolam gravemente o indivíduo da sociedade. Os problemas emocionais a que dão origem são imensos.

As sensações especificamente visuais são apenas as que dizem respeito à cor e à luz. Tudo o mais pode ser fornecido ao cego com maior ou menor perfeição, com maior ou menor rapidez, com maior ou menor abundância. E desde que Luís Braille resolveu o problema da leitura e da escrita em relevo de maneira eficiente e definitiva, o campo intelectual ficou‑lhe francamente aberto. Se os cegos encontram ainda hoje dificuldades nos seus estudos ou outros trabalhos intelectuais, não é por causa imediata da cegueira mas por desinteresse de uma sociedade feita por videntes para videntes, que não lhes proporciona os meios necessários a utilização das técnicas que lhes são próprias.

Os problemas intelectuais surgem realmente quando o indivíduo, além de cego, é também surdo. A faculdade de ouvir representa para o homem a aquisição espontânea da linguagem, que leva o seu espírito até à concepção das ideias gerais e abstractas. Todo o progresso na ordem das abstracções tem de se ficar a dever a progresso paralelo na assimilação da linguagem. A vista, em última análise, não leva ao espírito mais do que as imagens dos objectos exteriores. O ouvido é que fornece as ideias, todo o trabalho de reflexão que o pensamento acumula sobre estes objectos. Aristóteles dizia que «de todas as faculdades, a mais importante para os desejos animais é a vista; mas para a inteligência, é o ouvido».

Tenhamos em conta que estes problemas interessam exclusivamente à psicologia dos cegos‑surdos congénitos ou àqueles que assim ficaram na mais baixa infância. Tais diminuídos são muito raros. Nos recém‑nascidos esta dupla deficiência física é geralmente acompanhada de lesões cerebrais muito graves, lhe provocam uma morte prematura. Os cegos‑surdos que só mais tarde vieram a perder a vista, o ouvido ou ambos os sentidos estão fora da questão.

As dificuldades na alfabetização dos surdos, e mais particularmente na dos cegos‑surdos, foram reconhecidas pela Dr.a Ana Maria Bénard da Costa na Associação dos Cegos do Norte de Portugal, quando há alguns meses lá dirigiu uma conversa orientada sobre «Programa de Educação de Deficientes Visuais».

Apesar de todas essas dificuldades, o esforço de recuperação foi iniciado ainda no século XVIII.

O Pe. De l'Épée fundou em Paris a Instituição dos Surdos‑Mudos e iniciou o ensino destes deficientes.

Aperfeiçoando os métodos do Pe. De l'Épée, o Dr. Samuel Gridley Howe, director da Perkins Institution, de Boston, conseguiu vencer o isolamento mental de Laura Bridgman, que além de cega e surda, estava quase totalmente desprovida do gosto e do olfacto.

Era o que de melhor se tinha podido fazer até 1886, data em que Ana Sullivan foi para Tuscumbia como professora de Helen Keller.

Princípios orientadores de Ana Sullivan

Filha de imigrantes irlandeses, Ana Sullivan tivera uma existência atribulada. Sua mãe morrera quando ela era ainda criança e o pai, alcoólico, abandonara a família pouco depois. Ana e seu irmão James foram entregues a um asilo de indigentes. James morreu lá, alguns meses depois.

Aos 14 anos, Ana dirigiu‑se desesperadamente ao presidente da comissão que investigava as condições de vida existentes no asilo e pediu que a levassem para a escola. Ela estava cega em consequência de tracoma e foi enviada para a Perkins Institution. Duas operações restituíram-lhe praticamente a vista, mas sempre sofreu dos olhos e acabou por morrer cega novamente, em 1936.

Era bem ingrata a tarefa que lhe propunham, como professora de uma criança cega, surda e muda. Laura lá continuava internada na Perkins Institution, incapaz de se adaptar a qualquer outro tipo de vida e representando como que o modelo a ser imitado. Por outro lado, a pouca preparação de que dispunha e a sua visão precária eram factores negativos a considerar. E Helen era uma incógnita. Ninguém podia garantir que ela não fosse atrasada mental.

Mas Ana Sullivan aceitou. E desejosa de bem cumprir a sua missão, pediu que a deixassem permanecer alguns meses na Perkins Institution, junto de Laura Bridgman, estudando os métodos de que se serviam para com ela e lendo atentamente os relatórios que o Dr. Samuel Howe tinha deixado. Já mais tarde, como professora de Helen Keller, Ana Sullivan lia sem cessar, com sacrifício de seus olhos doentes, procurando conseguir um domínio perfeito do inglês, aumentar a sua cultura geral, instruindo-se sobre a pedagogia especializada, para bem servir a discípula a que se dedicara.

Como Ana Sullivan logo reconheceu, Helen tinha qualidades realmente extraordinárias. Não era uma criança vulgar e o interesse pela sua educação devia ser, por isso, acima do vulgar. Nós reconheceremos também que o êxito espectacular de Helen Keller se deve em grande parte ao trabalho de valorização pessoal que Ana Sullivan se impôs, ao seu estudo cuidado de todos os problemas, ao humanismo verdadeiro com que tratou a discípula, à sua capacidade de amar espontâneamente, à sua devoção sem limites pela tarefa que lhe coube na vida.

Ana Sulivam bem podia servir de modelo em Portugal, onde depois de tantas lutas e de tanta indiferença começa a surgir o apoio oficial à recuperação dos cegos e onde as improvisações, as inadaptações, às soluções simplistas nos impedem de tirar dele todo o proveito que seria de desejar.

Baseada, pois, nos seus estudos e no conhecimento dos problemas que daí lhe advinha, Ana Sullivan tratou Helen como uma criança que vê e ouve. Nunca permitiu que alguém a tratasse com aquele excesso de zelo que pode transformar a cegueira numa grande tragédia; nunca tolerou que alguém a elogiasse, a menos que ela tivesse feito qualquer coisa digna de elogio; nunca consentir sem protesto que alguém se dirigisse a ela e não a Helen, como o faria se a discípula fosse uma criança normal.

Depois que Helen pôde distinguir o que estava certo do que estava errado, tão pouco lhe deixou passar uma falta sem castigo. A criança roía as unhas. Um dia Ana Sullivan surpreendeu‑a em flagrante. Puxou‑lhe ásperamente as orelhas e atou-lhe as mãos atrás das costas. Então, impossibilitada de comunicar com o mundo exterior, Helen encontrou dentro de si a força suficiente para combater mau hábito.

Escusado será dizer que a família dela não gostava muito das atitudes de Ana Sullivan. Helen Keller conta que só a mãe e uma prima compreendiam a sabedoria do método.

Aos de fora também esses processos podem fornecer motivos de reparo. Porém, «contra factos não há argumentos» e os assombrosos resultados alcançados por Helen KelIer dispensam toda a discussão teórica e impõem a sua terapêutica como exemplo a seguir.

De maneira muito especial recomendaríamos este exemplo às famílias dos nossos cegos. No lar o cego nem sempre encontra o ambiente mais adequado. Ora é tratado com excesso de protecção, ora sente o repúdio familiar. Isto gera nele sentimentos de insegurança e insuficiência que o levam ao egocentrismo e à rigidez da personalidade. Daí advém desajustamentos emocionais mais ou menos graves, que muito prejudicam a sua valorização como homem e a sua integração total no agregado social de que faz parte.

Para além das alturas a que Helen Keller pôde elevar‑se, o que há de mais positivo nos métodos de Ana Sullivan é o facto de a discípula ter ficado inteiramente independente, independente até da sua professora. Durante muito tempo não pôde deixar de se pôr a questão de saber o que pretendia realmente a Helen Keller e o que era obra de Ana Sullivan. A resposta foi dada depois de 1936, após a morte da professora. Na fase criadora, uma não poderia passar sem a outra, as duas formavam um sistema de relações de tipo funcional, que constituía uma unidade indivisível. Mas Helen Keller pôde continuar a viver a sua vida e a trabalhar intensamente pela causa da recuperação dos diminuídos físicos depois da morte de Ana Sullivan, ainda que sentindo a sua falta todos os dias. Graças à maneira inteligente como foi preparada, prosseguiu mesmo depois de 1960, quando a mão da morte arrebatou também Polly Thompson a grande amiga que a acompanhou durante 40 anos.

Aliás, parte da grandeza de Ana Sullivan deve‑se precisamente ao facto de ela nunca impôr os seus pontos de vista ou a sua personalidade sobre a aluna, quando estava em condições ideais para o fazer. Basta dizer‑se que sendo Ana Sullivan quem revelou a Helen o segredo da linguagem, quem a lançou no mundo das ideias abstractas, quem mais serviu de ponte entre ela e o mundo exterior, quem lhe leu a maior parte dos livros, conseguiu não influenciar a discípula no que diz respeito a religião.

Neste domínio as duas divergiam profundamente. No seu livro «Teacher», Helen Keller atribui à professora as seguintes afirmações, que por si só definem a posição de ambas:

«Penaliza‑me profundamente, Helen, não ser eu capaz de crer como você. Dói‑me não compartilhar do lado religioso de sua vida. Para mim, como você bem o sabe, esta vida é que tem valor. O que fazemos agora e aqui é muito importante porque nossos actos afectam outros seres humanos.

«Admiro muito a Bíblia como uma obra poética. Encontro nela belezas que me encantam, mas não creio que tenha sido inspirada por Deus de preferência a qualquer outro belo escrito. O futuro para mim está envolto em trevas. Creio que o amor seja eterno e que se manifestará perpètuamente na vida. Uso a palavra «eterno» no sentido de que o amor irá tão longe quanto possa alcançar a minha imaginação.

«Em si, é instintiva a crença num futuro onde os erros serão corrigidos. A fé na imortalidade consciente ajuda‑nos a considerar a vida digna de ser vivida, apesar de nossas limitações e dificuldades. A ideia de viver para sempre num lugar chamado Céu não me atrai em absoluto. Alegra‑me que a morte seja definitiva, excepto quando vivemos na lembrança do próximo».

Helen tinha as suas crenças, às quais Ana Sullivan não aderia. Mas podia respeitá‑las, porque a aluna não as usava para se consolar da cegueira e da surdez, mas como uma parte da felicidade que Deus quer proporcionar a todos nós.

O génio de Helen Keller

Tentámos reparar os efeitos da lenda e dar de Helen Keller a imagem que lhe corresponde no plano da humanidade; vimos os obstáculos que se opunham à sua valorização intelectual, como pessoa cega e surda que era; familiarizámo‑nos com os princípios esclarecidos que nortearam a acção de Ana Sullivan. Poderemos agora, com menos risco de nos deixar dominar pela própria emoção, conhecer alguns dados biográficos de Helen Keller e seguir através deles a caminhada fantástica desta criatura singular.

Helen Keller nasceu em Tuscumbia, Estado de Alabama, a 27 de Junho de 1880. Foi uma criança normal até aos 19 meses e parecia apreciar as flores, o voo rápido dos pássaros, o jogo de luzes e de sombras. Nessa altura contraiu uma doença, ainda mal diagnosticada, e esteve em estado desesperado. Por um desses caprichos da Natureza, de que a medicina é testemunha variadas vezes, a febre cedeu bruscamente e a criança escapou. Porém, a família não tardou a verificar que estava cega e surda. Como acontece com todos os que perdem o ouvido em tenra idade, foram‑lhe esquecendo as palavras que então balbuciava. Estava muda também.

Helen, embora vigorosa e sadia, mergulhou numa existência perfeitamente animal, feita das trevas da sua inconsciência. Não sabia comer à mesa nem queria lavar‑se; tinha acessos de raiva quando não conseguia fazer‑se compreender ou não lhe satisfaziam os caprichos; Vagueava pela casa e pelo jardim, destruindo tudo em que tocava, porque as suas mãos não sabiam que outro fim dar às coisas. A sua segurança pessoal e mesmo a daqueles que a rodeavam estava constantemente ameaçada. Aquela alma, aquecida ao rubro, parecia condenada a arrefecer, gota a gota, até gelar na solidão.

Desiludidos quanto às possibilidades da ciência médica, os pais de Helen foram afinal aconselhados pelo Dr. Alexandre Graham Bell a dirigirem‑se Perkins Institution, solicitando uma professora especializada que tentasse a educação de sua filha. Miguel Anagnos, que sucedera ao Dr. Howe como director da Instituição, recomendou a ex‑educanda Ana Sullivan.

Ana Sullivan, então com 21 anos de idade, chegou a Tuscumbia a 3 de Março de 1887 e impressionou-se com a fisionomia inteligente de Helen. Logo reconheceu a necessidade de modificar aquela menina indisciplinada e agressiva, corrigindo os defeitos de uma educação mal orientada. Ao mesmo tempo, havia que ensinar-lhe uma linguagem.

Começou a agir no dia seguinte. pela manhã. Levava consigo uma boneca, que as crianças da Perkins Institútion ofereciam a Helen. A menina já estava habituada a ter bonecas e ficou encantada com o presente. Depois que Helen se divertiu um momento, Ana Sullivan tomou‑lhe a mão e passou-lha várias vezes sobre a boneca; em seguida, lentamente, formou com os seus dedos na palma da mão da criança, os caracteres do alfabeto dos surdos‑mudos imaginado pelo Pe. De L’Épée, as quatro letras da palavra inglesa «doll» (boneca).

A criança gostou e por espírito de imitação procurou repetir os movimentos com os próprios dedos. Nos dias seguintes aprendeu a traçar outras palavras, como alfinete, chapéu, chávena, sentar-se, levantar-se, andar. Mas era apenas movimentos que a criança fazia sem saber o que significavam.

O Dr. Heurique Moutinho diz que o espírito de imitação é a base da educação da criança normal, que imita os sons e os movimentos dos lábios que ouve e vê nos seus parentes próximos até lhes compreender o significado. Sendo assim, ao imitar os movimentos da professora, Helen preparava o terreno para a descoberta do mistério da Linguagem.

A professora multiplicava as suas tentativas. No dia 5 de Abril, pela manhã, Helen não fora capaz de distinguir entre copo e água e isso provocara uma questão entre as duas.

A criança entretinha-se a brincar com a sua boneca nova, quando a professora lhe colocou nos braços uma outra boneca ‑ de trapos ‑ e traçou na sua mão a mesma palavra «doll». Ainda irritada, Helen atirou furiosamente a sua boneca ao chão e sentiu uma espécie de satisfação amarga ao perceber que ela ficou em pedaços. A professora arrumou os cacos para um canto e trouxe-lhe o chapéu. Iam sair e isto agradou à criança.

Tirava-se água do poço e as duas foram até lá. Enquanto a água corria sobre uma das mãos de Helen, a professora traçou na outra, primeiro, lentamente e depois mais depressa, a palavra «água» ...«água»... «agua»...

De repente, fez-se luz no espírito da criança.Ela associou a palavra «água» àquela coisa maravilhosa e fresca que lhe caía pela mão. Onde quer que aquilo estivesse seria sempre «água». Os sinais que se traçavam nas mãos referiam-se às coisas.

Acabava de ser revelado a Helen Keller o mistério da linguagem. Chão... Bomba... Professora... Sabia agora que tudo tinha um nome queria conhecê‑lo. Ia ter um meio de se comunicar com os outros, de ser compreendida por todos.

Helen voltou para casa ardente de entusiasmo e de curiosidade. À chegada lembrou‑se da boneca que tinha partido. Procurou os cacos e tentou em vão reuni‑los. Só então compreendeu que tinha feito mal e chorou lágrimas de arrependimento. Acabara‑se a existência sem sentido. Helen Keller começava a viver e a sentir como um ser humano.

Helen resume as emoções desse primeiro dia de vida intelectual nestas palavras simples e pungentes: «Depois, eu nunca mais fui má ...». Yvonne Pitrois, que cita a frase no seu livro «Une nuit rayonnante», pergunta: «Poderia ela dar melhor ideia da intensidade do seu sofrimento e da grandeza da sua redenção»?

Depois que Helen descobriu mistério da linguagem, era preciso revelar-lhe a existência de ideias abstractas, abrir-lhe as portas do mundo intelectual.

Era a fase mais interessante e mais difícil da sua educação, pelas brilhantes repercussões que iria ter em Helen Keller e pelas dificuldades especiais que os cegos-surdos representam neste aspecto, como já atrás tivemos oportunidade de referir.

Um dia a criança arranjou no jardim um ramo de violetas e levou‑as à sua professora. Esta quis beijá‑la, mas Helen evitou. Nessa altura não deixava que ninguém a beijasse, a não ser a sua mãe.

Então, a professora passou carinhosamente o braço em torno dela e traçou-lhe na mão:

Eu amo a Helen.

O que é amar ? perguntou a rapariguinha, como fazia sempre que não entendia uma palavra nova.

A professora puxou-a mais para si, pôs-lhe a mão no coração e disse:

Isso passa-se aqui!

Helen ficou perplexa. Existia o amor, uma coisa estranha que ela não podia tocar, cheirar ou saborear.

Um ou dois dias depois, sentada aos pés de Ana Sullivan, a criança empenhava-se em enfiar contas, alternando séries de contas grandes com séries de contas mais pequenas. Enganava-se muito e Ana Sullivan ia corrigindo pacientemente as suas falhas.

A certa altura, um erro maior destruiu profundamente a simetria do colar. A criança suspendeu o trabalho e ficou a procurar a maneira de remediar o lapso. Então a professora, tocando-lhe na fronte, traçou-lhe na mão: «pensar».

Helen compreendeu. «Pensar» era aquilo que se passava com ela, lá dentro, naquele instante.

A luz desta ideia nova, Helen lembrou-se do amor e uma vez mais perguntou o que era. Então a professora explicou em termos que ela pôde compreender:

O amor é como as nuvens que há pouco velaram o brilho do sol. Não podes tocar nas nuvens, mas sentes a chuva e sabes qual é, depois de um dia de calor, a sua acção benéfica sobre as flores e sobre a terra que está sedenta. Tão pouco poderás tocar no amor, mas sentes o encanto de que ele rodeia as coisas. Sem o amor não conheceríamos a alegria nem experimentaríamos nenhum prazer.

A verdade iluminou outra vez o cérebro de Helen. Sentiu que laços invisíveis a uniam aos seres humanos. Helen apreendeu a existência de ideias abstractas, que a iam lançar num mundo fantástico e belo, de culminâncias a que poucos homens conseguem elevar-se. E compreendeu também o amor, que foi afinal a constante de sua vida. Helen KelIer recebeu mais carinho e mais amor do que a maioria das pessoas; soube-os também retribuir com gratidão, enlevo, beleza, simpatia, abnegação, entrega total às causas nobres. A recuperação dos diminuídos, a paz, a justiça social, o combate à fome e à doença foram empresas que ela sempre patrocinou com o seu entusiasmo, a sua presença, o seu exemplo, o seu trabalho.

Mais tarde, a professora tomou um alfabeto em braille e fez com que Helen observasse o símbolo que representa a letra A .Ao mesmo tempo faz-lhe na outra mão um A do alfabeto dos surdos‑mudos. Desta vez a criança compreendeu instantâneamente e numa só lição aprendeu todas as letras do alfabeto em relevo. Estava na posse do sistema braille, processo de leitura e escrita que os cegos usam em todo o mundo e que havia de ser um poderoso elemento no seu trabalho intelectual.

Pouco depois, com a ajuda do guia-mão de que os cegos se servem, aprendia também a escrever a lápis, em caracteres ordinários. A letra de Helen Keller, na idade adulta, era regular, artística e de fácil leitura.

Quando pensamos que Helen Keller aprendeu a compreender, a exprimir‑se, a ler, a escrever por dois processos diferentes apenas em três meses e meio, nós experimentamos uma sensação de perplexidade. Era o génio que se manifestava nessa criança cega e surda‑muda, génio que estivera escondido pelo isolamento e pela rebeldia antes de Ana Sullivan aparecer, génio que afinal pode existir também em tantos diminuídos que ficam para aí sem a educação a que a sua condição de homens lhes dá pleno direito. A glória imperecível de Ana Sullivan foi a de saber fazer desabrochar o génio de Helen Keller. Como diz o Prof. Albuquerque e Castro, «Estavam feitas uma para a outra. A professora, para transformar a discípula; esta, para engrandecer a professora».

Mas o génio de Helen Keller será, talvez, melhor apreciado pelas pessoas normais, se em lugar de se revelar na aquisição de técnicas especiais, puder ser demonstrado na aprendizagem de uma matéria que lhes seja mais familiar.

Claro que pode. Aos 9 anos, e a seu pedido, Helen começou a aprender o francês. Era para ela um prazer, uma autêntica recreação, sentar‑se ao ar livre com a sua pauta sobre os joelhos, receber com uma mão as frases que a professora ou outra pessoa lhe ditava, traduzi-las mentalmente e escrevê-las com a outra mão, em braille e em francês. Três meses depois da primeira lição, ela escreveu uma carta longa e interessante, sem nenhuma ajuda.

Mas Helen estava a ficar extremamente magra e pálida. Todos achavam que ela era sobrecarregada, forçada a um trabalho excessivo, e censuravam surdamente Ana Sullivan. A mesma acusação surgiria mais tarde, quando Helen se preparava para se matricular na Universidade, mas a resposta da professora foi pronta e significativa: «Até agora ninguém pensou em cloroformizá‑la. Creio que este seria o único meio eficaz de impedir o exercício natural de suas faculdades». Helen Keller conservou pela vida fora essa operosidade infatigável, como uma das facetas de seu génio. Em criança como na idade adulta, se insistiam com ela para que descansasse no meio de qualquer tarefa mais difícil, respondia:

—Eu me sentirei mais forte, se acabar agora.

Outros horizontes na educação de Helen Keller

A estas conquistas basilares de Helen Keller. outras mais iam seguir-se. Aquela criança excepcional podia acalentar muitas aspirações.

Aos 10 anos Helen soube da existência de Ragnhild Kaata, uma menina norueguesa, cega e surda‑muda também, a quem tinham ensinado a falar. Helena, arrebatada pela ambição, traçou na mão da professora: «Tenho de falar»».

Ana SullIvan, cuja confiança nas possibilidades da aluna era o grande factor dos seus triunfos, apresentou a Helen a Sara Fuller, directora do Instituto de Surdos de Horace Mann, em Boston. Sara apresentou Helen a Sara ensinou Helen colocando dentro da boca os dedos da menina, para que ela pudesse ver a posição da língua e dos dentes, o movimento do maxilar e o curso da traqueia. Pronunciava as vogais, que Helen procurava repetir depois de pôr os seus próprios órgãos bucais na posição adequada. Em seguida passaram às sílabas, às palavras e às frases.

Ao fim de um mês de aprendizagem, Helen, num som cavo e aspirado, pronunciou a sua frase histórica:

- Eu já não sou muda.

A aprendizagem dos elementos da pronúncia estava concluída. Agora era uma questão de aperfeiçoamento e isso podia ficar a cargo de Ana Sullivan.

As duas repetiam palavras e frases durante horas a fio.

Helen lutou toda a vida pela linguagem. Mas, apesar dos exercícios que fez, nunca conseguiu uma articulação clara e correcta e teve sempre consciência disso. Os seus sons guturais eram difíceis de entender, sobretudo quando não se estava habituado a ouvi-los. Parece que Helen Keller não pôde ir mais longe devido ao insuficiente desenvolvimento dos seus órgãos fonadores e também porque o sentido do tacto não proporcionava o ensejo de observar tão minuciosamente quanto era necessário os órgãos de Ana Sullivan.

Mas a conquista da linguagem por Helen Keller, mesmo defeituosa, representa uma grande vitória e teve ainda o condão de a especializar na leitura de lábios. Devido às muitas observações e exercícios que teve de fazer, Helen Keller acabou por poder compreender sem intermediários as palavras de um interlocutor. Só precisava de pousar-lhe o polegar na laringe, o indicador nos lábios e o médio em uma das narinas. Embora este processo fosse mais incómodo e mais lento do que a comunicação manual, ela o utilizava para conversar com aqueles que não conheciam o alfabeto do Pe. De l'lépée.

Helen KelIer desde cedo se afeiçoou aos jogos e desportos ao ar livre. Esta é uma paixão tão característica dos norte-americanos que até se faz sentir nos seus programas de recuperação de cegos. Estimulada pela professora e também graças àquele desejo de ser como os outros, de fazer como os outros, Helen aprendeu a jogar as cartas e o xadrez, a patinar, a remar, a nadar, a mergulhar...

Depois da fase heróica de sua educação, Ana Sullivan levou-a para a Perkins Institution. Ali ela teve a companhia de outras crianças que conheciam o alfabeto do Pe. De l'Épée e aprendeu a modelar em barro, a confeccionar cestos, a tricotar. Era uma experiência engraçada, já que as suas mãos ágeis se adaptavam fàcilmente a qualquer modalidade de trabalho. Mas Helen ansiava por voltar aos estudos. Repetia constantemente:

- Quero aprender muitas coisas sobre todas as coisas.

Deste interesse apaixonado pelos estudos não deve, no entanto, concluir-se que a vida intelectual era sempre um prazer para Helen. Certas matérias (e particularmente a matemática) ofereceram‑lhe grandes dificuldades. Mas ela dizia, numa frase belamente heróica:

- Os obstáculos foram feitos para serem superados.

Esta maneira de pensar foi particularmente preciosa no período seguinte de sua vida. Helen estava com 16 anos e decidira ir para a Universidade. Faria os preparatórios na Gilman School e depois matricular-se-ia no Radclife College, para moças, ligado à Universidade de Harvard.

Mas conceber este plano e pô-lo em prática custou muito. O director da Perkins Institution teve o projecto de internar a professora e a aluna no seu estabelecimento; outras pessoas entendiam que se ela queria estudar, então devia dedicar-se à literatura inglesa e pouco mais, pois era o único campo em que tinha possibilidades de vir a produzir trabalho útil.

Helen, porém, apoiada pela professora, resistiu a todas as pressões e entrou para a Gilman School. Já lá estava há um ano quando soube que acusavam a professora de a oprimir, obrigando‑a a um trabalho que a sua saúde não aguentaria. Aquilo doeu-lhe muito, mas Helen só mais tarde compreendeu que essas acusações, como as tentativas de interferência nos seus planos, tinham apenas como causa a tola atitude que em geral se toma para com os deficientes, evitando-se que executem qualquer tipo de trabalho, que assumam qualquer espécie de responsabilidade.

Saibam todos os que lidam com cegos ou outros diminuídos que estes indivíduos só se sentem realmente felizes quando estiverem reabilitados perante eles próprios perante a sociedade. E esta reabilitação só o trabalho a pode proporcionar.

Helen matriculou-se no Radeliffe College em 1900 e foi a primeira pessoa com tripla deficiência a entrar numa instituição de ensino superior. Mas a Universidade foi uma desilusão para ela. Ana Sullivan, que assistia às aulas, transmitia-lhe a exposição dos professores, mas ela não podia tomar notas, porque as suas mãos estavam ocupadas na comunicação. Ao chegar a casa escrevia ràpidamente em braille o que tivesse conseguido guardar de cor. Não tinha ao seu dispor a aparelhagem que a técnica moderna põe hoje ao serviço dos estudantes cegos; poucos livros estavam transcritos em braille; depois, como a própria Ana Sullivan admitiu, já não tinha conhecimentos que lhe permitissem acompanhar a marcha da aluna no mundo em que se envolvera. Apenas podia ajudar nas inúmeras leituras a fazer, mas os seus olhos cansados também a atraiçoavam muitas vezes.

Para além destas dificuldades, resultantes das condições especiais em que trabalhava, Helen nunca se deu bem com o tipo de ensino que se ministrava na Universidade. O seu pensamento, todo feito de imaginação e entusiasmo, sentia-se repelido pelos métodos minuciosos, por meio dos quais se busca compreender melhor as obras do passado, a crítica dos textos, os comentários filológicos e históricos, por todo esse aparelho científico que ameaça quebrar a emoção e faz passar a primeiro plano o elemento intelectual.

Enfim, «os obstáculos foram feitos para serem superados», e Helen venceu. Formou-se, cum laude, em 1904.

Quando recebeu o seu diploma universitário, Ana Sullivan, a seu lado, compartilhava naturalmente a hora do triunfo, como tinha compartilhado os dias e os anos de seu penoso trabalho. Helen dizia:

—O que me parece mais belo na minha vitória é a alegria e a felicidade que ela trouxe à minha professora. Sinto realmente que o sucesso lhe pertence antes de ser meu, porque ela foi a minha inspiradora.

A obra de Helen Keller

A educação de Helen Keller, a projecção que o seu caso teve desde os dez anos e até o seu início fulgurante como escritora permitiram-lhe exercer uma notável acção em favor dos diminuídos. A «História da Minha Vida», que publicou quando ainda estava na Universidade, espalhou pela primeira vez entre o público a ideia de que existem cegos‑surdos‑mudos susceptíveis de se educar e com direito a uma existência digna da sua condição de seres humanos.

Desde criança ela teve o privilégio de estar em contacto com artistas, filósofos, poetas e filantropos. Se os intelectuais a enriqueciam com os dons do seu talento, as pessoas com possibilidades económicas estavam sempre prontas a servi‑la. Helen, que conhecia o sofrimento de muitos diminuídos, não perdia a oportunidade de os ajudar.

Um dia enviou 25 dólares a um pobre mineiro, que tinha perdido uma perna num acidente de trabalho e que no seu desespero só pensava em suicidar‑se. Quando lhe contaram a história de Helen Keller, o homem estremeceu, pôs de lado a compaixão por si mesmo e gritou:

—Se essa cega‑surda‑muda pôde fazer tudo por ela e pelos outros, dizei‑lhe que eu ainda sou capaz de me desenrascar sòzinho.

Mesmo depois de se formar e durante muito tempo Helen Keller trabalhou anònimamente a favor dos cegos. Fazia sugestões aos pais de crianças cegas, respondia as perguntas de adultos que queriam instruir‑se ou arranjar emprego, agitava na imprensa o problema da prevenção da cegueira. Enviava mensagens de incitamento aos estudantes cegos que seguiam seus cursos com dificuldade, emprestava‑lhes os livros que tinha ou indicava‑lhes onde poderiam adquiri‑los. Enfim, fez todo esse trabalho humilde, que não se vê, mas que entre os cegos atinge uma importância fundamental e a que nenhuma pessoa empenhada em contribuir para a resolução dos problemas tiflológicos pode responsávelmente esquivar‑se.

Mas a actividade de Helen Keller em favor dos cegos ganhou novas perspectivas em 1923, quando ela entrou para a Fundação Americana para os Cegos. Viajava continuamente pelos Estados Unidos, ficando poucos dias em cada cidade. Faziam‑se reuniões em que eram expostos os planos da Fundação e Helen Keller dirigia apelos à generosidade do público, no sentido de que contribuísse para aumentar os fundos da Organização. Apelos semelhantes eram feitos em jornais e revistas, a pedido de Helen Keller, e ela própria escrevia aos grandes doadores. Era difícil deixar de contribuir e o volume dos donativos crescia de maneira comovente.

Ver uma pessoa mundialmente famosa incomodada pela publicidade, servindo no cartaz, a angariar dinheiro para uma organização de protecção aos cegos tem o seu quê de chocante. Helen KeIler aceitava o sacrifício, atendendo a que era feito em benefício dos cegos. No seu livro «Teacher», diz que embora a publicidade às vezes pesasse como correntes sobre ela e sobre a professora, tudo o que então se passou não deixou de ser uma gloriosa aventura, um novo passo para tornar a história do cego mais ampla e luminosa.

A Fundação Americana para os Cegos tornou‑se cada vez mais forte e ampliou os seus serviços. Helen Keller teve então oportunidade de por em prática as suas ideias sobre programas de assistência aos cegos. Foi devido ao seu vigoroso trabalho que se formou uma comissão encarregada de defender os direitos dos cegos‑surdos da América e cabem‑lhe também numerosas diligências no que diz respeito à difusão do livro falado. Estas diligencias culminaram quando o Congresso concedeu uma generosa verba para os respectivos serviços.

Helen Keller tornou‑se cidadã do mundo. E como os problemas dos cegos, com maior ou menor acuidade, são essencialmente os mesmos em toda a parte, ela começou a visitar países estrangeiros, a pedido de diversos governos e sob os auspícios da Fundação Americana para os Cegos, da Fundação Americana para os Cegos de Além‑Mar e de outras organizações. Esteve várias vezes na Europa e no Japão. Posteriormente visitou a África do Sul, o Médio Oriente, a América Latina, etc.

Atrás de si iam surgindo escolas para crianças, centros de recuperação para adultos e outras iniciativas de interesse para o bem‑estar dos cegos. No México, por exemplo, Helen Keller encontrou a Clínica Oftalmológica, onde eram tratadas gratuitamente mais de duzentas pessoas por dia. A pedido dos médicos, ela dirigiu um apelo e outros especialistas foram colaborar nessa obra verdadeiramente humanitária.

Mas para Helen Keller todos os diminuídos eram motivo de preocupação. Durante a última guerra mundial correu os Estados Unidos de costa a costa, visitando todos os hospitais do exército e da marinha. Nas viagens pelo estrangeiro levou a sua palavra de alento aos feridos na Inglaterra, França, Itália e Grécia.

E tal como aquele mineiro que se julgava perdido e queria suicidar‑se, muitos militares, atingidos pela estupidez dos homens e pela brutalidade da guerra, reagiram e prepararam‑se para uma nova vida. Depois de conhecerem a história de Helen Keller e de terem junto de si a presença dessa criatura extraordinária, aquelas vítimas teriam de fazer alguma coisa mais do que ficar para ali, entregues ao seu desespero.

Como já referimos, Helen Keller esteve em Lisboa em 1956. Tratava‑se de uma viagem de férias que durou cerca de uma semana. Apesar disso, na recepção que deu à Imprensa, Helen Keller não deixou de manifestar a sua mágoa pelo pouco que em Portugal se fazia a favor da recuperação dos cegos. Mesmo em férias, ela nunca deixava de se interessar por estes assuntos.

Quando lhe apontaram o caso do Dr. Augusto Roque Medina, cego cabo‑verdeano que se licenciara em Letras, Helen Keller não deixou que se iludisse o problema. Era magnífico, mas tratava‑se apenas de um caso, quando poderiam e deveriam ser tantos.

Hoje, 12 anos volvidos, são diferentes as perspectivas que se apresentam aos cegos portugueses. O Estado abriu os seus próprios estabelecimentos de acção tiflológica e propõe‑se levar a cabo, em futuro muito próximo, um vasto plano para a valorização dos cegos. As instituições particulares, graças a entendimentos com os serviços de assistência oficialmente organizados, vão também poder ampliar as suas actividades. Os cegos abrem novos caminhos nas actividades intelectuais e as oportunidades de colocação no trabalho efectivo e remunerado vão também aparecendo.

Não podemos esquecer os múltiplos factores que se congregaram para esta mudança consoladora, mas não será fantasia da nossa parte incluir a presença de Helen Keller em Portugal como um desses factores. O Dr. Henrique Moutinho, por exemplo, dá, um testemunho autorizado. Este distinto oftalmologista, que em 1955, com o patrocínio do Rotário CIube de Lisboa e sob os auspícios da Liga Portuguesa de Profilaxia da Cegueira, fundou o primeiro centro de recuperação de amblíopes, a que se deu o nome de Helen Keller, diz que o incentivo dela o tem ajudado a manter aquela Obra, apesar de todas as dificuldades que surgem, especialmente de carácter económico.

O exemplo de Helen Keller

Helen Keller foi uma mulher que viveu, sentido mais autêntico da palavra. A sua vida contém normas de conduta que muito poderão servir a quem quer caminhar com segurança e realizar-se plenamente no tempo de crises e mudanças em que vivemos. Procuraremos evocar as que nos parecem mais sugestivas.

Ao longo dos anos ela soube encontrar fartos motivos de interesse e satisfação, que lhe tornaram a vida bela e digna de ser vivida. Não podia ver as estrelas, mas tinha outras estrelas na alma. Isto não é só literatura. Um dia em que alguém se admirou do seu interesse pelas flores, Helen Keller não pôde deixar de observar que além das cores, as flores têm outros motivos de atracção, como o perfume, a frescura, a delicadeza....

Considerava-se uma pessoa feliz e desejava dividir com os outros a felicidade de que gozava. E precisamente porque a felicidade se obtém procurando-a para os outros, ela, que levou felicidade a tanta gente, viu a sua aumentar de maneira contínua.

Helen Keller, que não desejava destacar-se da humanidade, mas dissolver-se nela, viveu indivizíveis momentos de orgulho quando os soldados feridos quiseram tê-la a seu lado para que os confortasse. Tinha duas mãos, tinha um coração, tinha confiança nas forças ocultas do homem. Podia ajudar os mutilados a se adaptarem a uma existência diferente.

Isto não significa que Helen Keller tivesse uma visão limitada do mundo em que vivia. Ela não ignorava a fealdade das coisas nem os defeitos dos homens. Mas o seu temperamento generoso levava‑a a encarar o mal e as desgraças da vida como defeitos que se podem corrigir ou, pelo menos, compensar e superar. O Rev.° Phillips Brools disse-lhe em criança que «há mais ocasiões de praticar o bem do que de fazer o mal» e ela nunca se esqueceu disso.

Esta atitude perante a vida e os seus problemas ficou claramente patenteada em Lisboa, quando uma jovem (que certamente se sentia diminuída pelas suas faltas momentâneas de coragem) quis saber se Helen KeIler nunca tinha desanimado. A resposta foi simples e significativa:

- Algumas vezes a hostilidade dos homens, a realidade da miséria e a obstinação da estupidez chegaram a magoar-me. Mas nunca desanimei. A piedade por nós próprios é o nosso pior inimigo. Se nos deixarmos dominar por ela, nunca conseguiremos fazer nada.

O ânimo e a visão realista de Helen Keller manifestaram‑se já na adolescência, quando quis completar a sua educação. A falta de vista e de ouvido impediam-na de seguir pelos caminhos direitos que conduzem ao saber, mas Helen fez sua célebre frase do romano que dizia: «Estar desterrado de Roma equivale a viver fora de Roma». Uma vez que não podia ir pelos caminhos direitos, faria a viagem por atalhos. E foi assim que Helen Keller formulou o plano de ir para a Universidade e frequentá‑la em regime de integração total. Contava, então, 16 anos.

Em 1900, quando já tinha o certificado de admissão, ela escreveu ao Presidente do Conselho Académico do Radclifle College, manifestando a intenção de ingressar na Instituição e pedindo que lhe permitissem trabalhar nas condições especiais em que podia fazê‑lo. Nessa carta reconhecia que os obstáculos a vencer eram muito grandes, mas acrescentava: «Um soldado não se julga vencido sem combater».

Helen Keller combateu e venceu. Mas durante os estudos travaram-se combates, talvez ainda mais duros, dentro de si mesma. Os olhos da professora estavam a piorar e Ana Sullivan recusava-se a fazer tratamento para não cortar a ajuda à sua discípula. Helen chegou a pensar que talvez devesse renunciar à Universidade... Não renunciou, mas mentiu muitas vezes à professora, dizendo que se lembrava de muitos trechos que lhe haviam escapado, para evitar que ela lhos lesse outra vez.

O melhor exemplo que se pode dar sobre a perseverança de Helen Keller é a sua luta pela linguagem. Desde que aprendeu a falar, aos dez anos, ela nunca deixou de se esforçar para fazer conferências sem ajuda, de maneira satisfatória. Não conseguiu os seus intentos, mas tirou o devido proveito do seu trabalho insano e da sua frustração relativa. São dela estas palavras: «Só venci o silêncio hostil parcialmente. Acho que a minha voz não é agradável, mas revesti suas asas partidas com os matizes indeléveis de meus sonhos, e minha luta por ela fortaleceu as fibras do meu ser e aprofundou minha compreensão de todas as ambições frustradas, de todos os esforços humanos».

Os homens realmente grandes não precisam de alcançar a perfeição para sentirem o seu trabalho recompensado. Basta esforçarem-se honestamente para alcançá-la e não serem insensíveis aos progressos que vão fazendo.

Na vida de Helen Keller também houve lugar para o desgosto e a adversidade, que põem à prova a têmpera dos entes superiores. Contaremos alguns casos.

Aos 10 anos ela plagiou inconscientemente Margarida Canby no «The Frost King». Já então era famosa e foi acusada de querer enganar os que a rodeavam; Ana Sullivan foi também acusada de embusteira. Uma noite, na cama, no turbilhão de seus pensamentos, a criança foi ao desespero. Julgou-se desonrada e chorou amargamente. A única consolação que teve foi supor que morreria antes do dia seguinte.

A tempestade, porém, foi-se acalmando. E se Helen nunca mais esqueceu o incidente, a verdade é que soube ser-lhe superior. Aos poucos os livros foram reconquistando o interesse que tinham para ela e acabou por voltar a escrever.

Em 1936 morreu Ana Sullivan, a professora e companheira de Helen Keller durante meio século. Foi como se um pedaço da sua alma tivesse morrido também. Ela ficou desorientada, perdida no oceano da vida.

Mas ao fim de uns meses surgiu a reacção salutar. Algum tempo antes da morte da professora Helen tinha-lhe prometido que faria uma viagem ao Japão em prol dos cegos e dos surdos daquele país. Ela e Polly Thompson embarcaram com a consciência de quem cumpre um dever sagrado. E foi nesta viagem e nos magníficos resultados alcançados que Helen Keller encontrou forças para continuar.

O vácuo começava a dissipar-se. Ainda que sentindo a falta da professora todos os dias, ela e Polly Thompson recomeçaram a viver e a trabalhar pela humanidade que sofria.

Dez anos depois, quando Helen Keller se encontrava na Europa a estudar os problemas dos cegos atingidos pela guerra, recebeu a notícia de que a sua casa, em Westestport, tinha ardido até aos alicerces. Era uma casa toda em madeira e Helen viu imediatamente as dimensões do desastre. A preciosa biblioteca que reuniu durante tantos anos, as cartas de sua mãe, de Ana Sullivan e de outras pessoas amigas, os objectos que recordavam suas viagens e três quartas partes do livro que andava a escrever sobre a sua professora... Tudo desaparecera, devorado pelas chamas.

Tomadas pela emoção, Helen e Polly Thompson caíram nos braços uma da outra. Helen disse que aquilo era para ela como uma mutilação.

Mas a palavra «mutilação» trouxe-lhe ao espírito os horrores da guerra, com os quais estava directamente em contacto. Os soldados cegos e mutilados, as crianças sem lar e sem família, as cidades transformadas em ruínas fizeram que Helen Keller esquecesse a sua própria desgraça.

Quando regressou aos Estados Unidos, já ia forte para a luta. Recomeçou o livro sobre a professora, que foi publicado em 1954. A casa foi reconstruída por amigos e lá é que terminou esta vida exemplar.

O tempo cobrou seu tributo. Polly Thompson morreu em 1960. Helen Keller, que há dois anos se encontrava doente, faleceu no passado dia 1 de Junho, depois de sofrer um ligeiro ataque de coração.

Helen Keller morreu. Mas o caminho que percorreu nesta vida, desde o isolamento até à celebridade, continuará a ser o argumento mais poderoso para vencer a inépcia do senso comum e abrir novas perspectivas à integração social dos não videntes. Os processos da sua educação poderão oferecer directrizes preciosas aos tiflófilos portugueses e a sua vida inspirará os nossos cegos no seu esforço de valorização intelectual e técnica, na sua ânsia de realização como homens e como cidadãos. Para além disso, o seu exemplo de trabalho, de perseverança, de solidariedade impõe-se aos homens e mulheres de todo o mundo, sejam eles cegos ou não sejam.

Felizes os que, como Helen Keller, podem partir com a certeza de não terem vivido em vão !

CONFERÊNCIAS REALIZADAS NA TRIBUNA DA LIGA PORTUGUESA DE PROFILAXIA SOCIAL

PROFILAXIA DA CEGUEIRA — pelo Dr. Mário Moutinho

O PROBLEMA DA CRIANÇA ANORM:AL – pelo Prof. Dr. Victor Fontes

A PROFILAXIA DA CEGUEIRA EM PORTUGAL — pelo Dr. Artur May Viana

A VIDA MORAL, MATERIAL E SOCIAL DOS CEGOS — pelo Dr. Bertino Daciano Rocha da Silva Guimarães

A ASSISTÊNCIA ÀS CRIANÇAS ANORMAIS NO NOSSO PAÍS E AS SUAS NECESSIDADES ACTUAIS — pelo Dr. Schneeberg de Ataíde

OS CEGOS COMO CIDADÃOS E COMO HOMENS — pelo Prof. J. Albuquerque e Castro

A EDUCAÇÃO DOS CEGOS E A SUA REGUPERACÃO PARA A VIDA — pelo Prof. J. AlLuquerque e Castro

PREVENÇÃO DOS ACIDENTES OCULARES NA INDÚSTRIA — pelo Dr. Fernando Lacerda

MENSAGEM DE HELEN KELLER — por D. Maria Lúcia Silva Rosa

A RECUPERAÇÃO DOS DEFICIENTES, PROBLEMA SOCIAL DO NOSSO TEMPO — pelo Dr. Alvaro de Carvalho Andrea

PROFILAXIA DA CEGUEIRA — pelo Dr. Altino Baptista Pereira

PREVENÇÃO E TRATAMENTO DA AMBLIOPIA — pelo Dr. Miguel Ângelo Neto Soares de Oliveira

A FUNDAÇÃO SAIN E A REABILITAÇÃO DE PESSOAS CEGAS EM PORTUGAL — por D. Maria Lúcia da Silva Rosa

RECUPERAÇÃO DE DESVALIDOS — pelo Dr. Rogério Ribeiro

A REABILITAÇÃO E A INTEGRAÇÃO SOCIAL DOS CEGOS — pela Dr.ª. D. Maria João de Vasconcelos.