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“Isto de ser invisual é só um pequeno pormenor”

por Lerparaver

Marta Vitorino é cega de nascença mas essa circunstância não lhe tolhe os movimentos nem lhe quebra o ânimo. A estudante residente em Alcobertas canta,
escreve, pratica desporto e é uma estudante de eleição. A história de uma jovem de bem com a vida que rejeita tratamentos especiais e vê muito para além
do que os seus olhos permitem.

Edição de 2013-06-27

Marta Vitorino tem 16 anos, vive em Alcobertas (Rio Maior), e frequenta o 10º. ano de Línguas e Humanidades na Escola Secundária de Sá da Bandeira, em Santarém.
Desprovida logo à nascença de um dos cinco sentidos, a visão, consegue ver muito para além do que a maioria das pessoas alcança. Encantadora, fascina quem
com ela se cruza pela forma como encara a vida e como entende o mundo à sua volta.

Os diagnósticos médicos apontam para que a causa da deficiência visual de Marta se deva à existência de falhas no nervo óptico. A evolução da ciência poderá
no futuro trazer respostas, pois esta é uma matéria que está em estudo na Alemanha.

Clube de Xadrez, corta-mato, cantar, escrever, canoagem e outros desportos de aventura não têm segredos para Marta. Confessa que adorava saltar de pára-quedas
de um avião, mas por agora está a pensar começar a praticar judo para cegos e aprender a tocar guitarra.

Foi estudar para Santarém por obrigação, porque o governo não quis colocar professores de apoio em Rio Maior, mas a situação que no início não encarou com
agrado trouxe-a àquela que hoje confessa ser a sua cidade de eleição.

Desde o 5º ano que Marta tem uma taxista privada, que diariamente a leva à escola, mas mais do que isso a D. Helena é uma amiga com quem Marta passa cerca
de 80 minutos por dia.

Primeiro na Escola D. João II e actualmente na Escola Secundária Sá da Bandeira, Marta tem todo o acompanhamento necessário para cumprir com distinção as
actividades lectivas, onde conta com a ajuda do trabalho meritório da sua professora de apoio.

Começa a dar cartas no mundo da música e no final do mês de Maio venceu o Santarém Star Slam - concurso de talentos organizado pelas associações de estudantes
da Escola Secundária Dr. Ginestal Machado e da Escola Secundária de Sá da Bandeira - onde interpretou “Longe do mundo” de Sara Tavares. O título da canção
não lhe assenta bem, pois Marta Vitorino vive bem perto do mundo e sem tempos mortos.

Ver muito para além

do que os olhos permitem

Muito activa e aventureira, o lado mais introspectivo de Marta é colocado em prática através da escrita. Escreve poesia e prosa e até está a elaborar um
livro em braille que já tem 450 páginas. É a história de uma rapariga invisual, em parte autobiográfico. Com alguma fantasia à mistura, a história revela
aquilo que Marta é no presente e o que sonha ser daqui a alguns anos. “Normalidade nós vemos todos os dias, o mundo está cheio de coisas normais, nós precisamos
é de algo que nos cative, de algo diferente”, confessa Marta, justificando a sua paixão pela fantasia na literatura.

Crítica em relação à falta de interesse dos livros disponibilizados em braille, mas leitora assídua, considera que “os livros descrevem tanto que permitem
sair do sítio onde estamos e navegar para outros lugares, principalmente para as pessoas que não têm distracções visuais”.

Quer ser jornalista, na vertente económica, mas um dos seus sonhos é mesmo a música, porque são os aplausos do público que a emocionam. “Ver é muito mais
do que olhar com os olhos”.

“Isto de ser invisual é só um pequeno pormenor”, afirma Marta a O MIRANTE. “Nunca vi de outra maneira, se calhar se eu tivesse visto de outra forma tinha
sido mais difícil aceitar”, completa. Vê sombras e utiliza essa capacidade para captar pontos de referência para se guiar. Bem integrada na sociedade e
rodeada de amigos, para Marta “há muitas pessoas que vêem, mas que não olham, não apreciam as coisas”.

As barreiras arquitectónicas da cidade de Santarém e a falta de civismo dos cidadãos são factores que Marta Vitorino não se esquece de sublinhar. O acto
de deixarem carros no passeio, os postes no meio do caminho, os passeios por arranjar e os buracos são alguns obstáculos diários para os invisuais. “As
pessoas não pensam em nós, quando digo nós refiro-me também às pessoas de cadeira de rodas”.

Na escola ressalva que os exames nacionais deviam vir melhor preparados e nos testes intermédios considera injusto o facto dos mesmos não serem traduzidos
para braille. “Os testes intermédios, como são opção da escola, não vêm em braille e o teste é lido e eu não tenho oportunidade de ler, o que não é justo”.

O que a fascina mais na vida é a amizade. “Um invisual tem muito a noção do que são os amigos verdadeiros, mas também sofre muito por ver alguns a passarem
ao lado”, reconhece Marta.

Ao longo dos anos tem aprendido que o esforço é essencial para tudo e dispensa qualquer tipo de tratamento especial, por isso está constantemente disposta
a mostrar que é capaz de ir mais além superando-se e surpreendendo quem a rodeia.

Comentários

A Marta é mais um exemplo de coragem e determinação, não permitindo que a sua limitação a impeça de sonhar alto!

Não percebo, a escola de Rio Maior aceitou o Marco e lá ele fez o 12º ano com distinção, então porque é que a mesma escola não tomou a mesma atitude em relação à Marta? Isto causa-me nervos e uma certa revolta! Como pode ser, o ministério da educação não disponibilizar um professor de apoio para a Marta? É ridículo, quando há tantos professores no desemprego e com formação na área do ensino especial, preparados para auxiliares estas crianças, que tanta vontade têm de vencer na vida!

Olha, Marta, desejo sinceramente que consigas tornar os teus sonhos realidade e, sei que vais conseguir...nunca desistas de lutar! Não percas essa alegria de viver e vontade de vencer!

Olá Marta !

És realmente um grande exemplo de coragem e determinação pra todos nós ! loool

E já agora não chama de invisual mas sim cego, senão dá a ideia que as pessoas não a vêm ! loool

Marco, tb és de Rio Maior, conheçes a Marta ?
Olha, tás a ver como ela editou um livro ! loool

Oh Marta, dá uma ajudinha ao nosso Marco para ele editar o seu primeiro livro, ok ?
Bjos

Olá Filipe!

Sim, conheci a Marta quando ela andava a frequentar a escola primária de Alcobertas. Ela tinha uma professora de apoio que me pedia para imprimir em braille pequenas histórias para ela praticar o braille.

Quando a conheci, ela devia ter 7 anos e via alguma coisa, porque andava sozinha e desviava-se dos obstáculos. Era uma criança como todas as outras: alegre e gostava muito de brincar.

Nessa altura, a escola estava a tentar arranjar um computador adaptado para ela, mas não sei se o Ministério da Educação chegou a disponibilizar-lhe o equipamento que tanto jeito lhe fazia.

Depois que fui estudar para Lisboa não soube mais nada dela, apesar de lhe
ter pedido que me escrevesse se precisasse de alguma coisa. Soube por meio de outras pessoas que ela frequentava a Escolas das Marinhas de Rio Maior e que cantava muito bem. Nessa altura também tinha uma professora de apoio e era uma boa aluna. As pessoas ficavam encantadas com ela, que, como já disse, tinha um talento para cantar e era cheia de garra. Mas também os outros meninos eram cruéis com ela, o que a fazia sofrer.

Não sei porque foi estudar para Santarém, apenas pensei que tivesse mais apoios lá do que aqui. Mas se foi por não ter um professor de ensino especial, acho muito estranho porque a minha escola aprendeu comigo e estava preparada para receber alunos cegos. Mas vejo que a Marta está feliz com a sua nova escola, onde se sente completamente intregada.

Ó Filipe, a Marta ainda não editou o seu livro, mas está para breve. Em braille 450 páginas são o equivalente a 150 ou 200 páginas a tinta. Mas quando o editar, gostava muito de o ler!

Qualquer dia ponho a minha máquina braille no arranjo e começo a escrever como fazia antigamente. Gosto mais de sentir os pontinhos e de levar os textos que escrevi para os ler deitado na cama.

A Narta terá todo o meu apoio para realizar os seus sonhos. Nunca desistamos de sonhar porque é o sonho que nos faz viver e ir muito mais longe na vida.

Abraço

Olá Marco !

Tenho pena que ela não esteja por estas bandas, e q não tenha tido a sorte de a conhecer ... :-(
Porque pelo que tu dizes, ela é fantástica, é verdadeiro de exemplo de coragem, e uma verdadeira guerreira, tal como nós ! loool

Apesar de tudo, tens mantido contacto com ela, nem q seja por escrito ?? Isso é importante ! loool

Fogo, 150 a 200 págs a negro é bué, espero q ela tenha sucesso na edição do livro dela ! loool

Quanto a ti Marco, podes usar as novas tecnologias, ou seja o teu computador com o jaws. abres o word e começas a escrever ! loool
Ah, não te esqueças de ir gravando de vez em quando ! loool
Mas se preferes à antiga com a máq Braille, na boa ! loool

Abraços

Olá Filipe!

Os exemplos de coragem e de alegria de viver são muito importantes para nós e para aqueles que cegaram recentemente ou que esbarram diariamente com barreiras de todos os tipos - arquitectónicas, atitudinais, pessoais, etc.

Escrever um livro sobre nós e as nossas dificuldades, mas também os nossos sonhos, é dar-nos a conhecer mais pelo que somos e pelo que damos de nós, porque assim muitas pessoas perceberão que a nossa vontade é maior do que as nossas limitações.

A Marta é uma pessoa que ias gostar de conhecer, muito inteligente e cheia de sonhos. Nunca me correspondi com ela por carta ou por outro meio, mas quando soube que estava a estudar em Santarém, tinha muitos amigos, ganhou um prémio num concurso de canto e estava prestes a editar um livro fiquei muito orgulhoso e feliz!

Já reparaste que uma pessoa que faz muito desporto tem mais resistência ao stress? Só lhe faz bem descarregar energias negativas! Eu, em Rio Maior, praticava natação, canoagem, escalada, atletismo, remo e muitas outras modalidades desportivas.

Tenho livros meus no word, embora também goste de os ter em braille para os ler e reler. Disseste uma coisa que fez-me pensar... As tecnologias, essa ferramenta que pode tanto servir para a integração das pessoas com deficiência como para a realização pessoal das mesmas. E, como gosto muito de escrever, podia fazer desse talento uma profissão ou uma ocupação. Enquanto não houver emprego possível, podia escrever, é uma boa maneira de as pessoas não acabarem deprimidas por estarem em casa.

Caramba, como simples palavras de um amigo como tu conseguem despertar sonhos adormecidos! Há anos que sonho editar livros mas falta-me persistência e garra, mas continuo com esperança, com vontade, e sobretudo com inspiração.

Um dia conseguirei, nem que tenha de ir até às últimas!

Abraço

Olá Marco !

Podes crer q se não fossem esses exemplos de coragem, os que passam por elas não teriam tanta força de vencer, e haveria mto menos pessoas na Sociedade despertas a esse tipo de situações e sensibilizadas, embora todos sabemos q ainda são uma pequena parte .... !

Ler 1 livro elaborado por 1 surdocego é indirectamente, mais um meio de sensibilizar a sociedade, e ao mesmo tempo uma forma de estimulação pra todos aqueles q tão a passar pela mesma deficiência, mesmo entre várias deficiências ... !

Repara, e na Fraternidade em q eu tou, isto é um pensamente mto recurrente
Se um cego vai animado, alegre ... visitar outro cego mais deprimido, mtas vezes em casa ... !
Este vai acabar por perceber, carago se fulano q é como eu anda alegre, feliz porque é q eu não hei-de estar tb ?
E isto torna-se contagiante, é transversal a todas as deficiências (eu só dei o ex de 2 cegos), .... ! loool

É verdade, às vezes não é preciso dizer muito, pra despertar sonhos adormecidos, talentos com alguma poeira .... ! looool
Tá na hora de concretizares esse sonho de editares o teu livro ! loool
Não tenho qq dúvida de que irás conseguir ! loool

Abraços

A pessoa encontra-se em certa situação e é ótimo conseguir atravessar da melhor maneira, tendo as situações à sua volta da melhor maneira.

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