Está aqui

ACAPO quer uma verdadeira democratização do livro

por Lerparaver

A responsável da ACAPO afirmou à Lusa que “é essencial o acesso dos deficientes visuais ao livro pois a leitura promove o desenvolvimento social, profissional e pessoal”.

Neste sentido, a ACAPO, seguindo a União Mundial de Cegos, quer reunir com as editoras para debater propostas tecnológicas e legislativas facilitadoras da leitura aos invisuais.

As plataformas digitais, quer áudio quer e-books, são uma hipótese, disse Graça Gerardo, que referiu também “a necessidade de alterar a legislação no que toca aos direitos de autor”.

“As restrições impostas pelos direitos autorais estão presentemente a impedir o acesso à leitura por pessoas com deficiência visual, seja porque dificultam a aquisição e a difusão de livros em formatos digitais acessíveis a estas pessoas, seja porque obstam à livre circulação de obras que, produzidas de forma acessível no estrangeiro, não podem ser disponibilizadas em Portugal”, lê-se num comunicado divulgado hoje pela ACAPO.

Graça Gerardo afirmou que “só faz, verdadeiramente sentido, falar num Dia Mundial do Livro [que se celebra no sábado] quando todos, de facto, tiverem acesso a ele, e isso ainda não acontece no que se refere aos deficientes visuais.

"Das obras literárias que diariamente são publicadas, só uma ínfima parte é disponibilizada em suportes que possam ser lidos pelas pessoas com deficiência visual", disse Graça Gerardo, que alertou para o envelhecimento da população que traz uma maior número de pessoas com necessidades especiais de leitura.

Sem comemorações específicas para este dia, a ACAPO projecta uma estratégia de sensibilização das editoras livreiras no sentido de “disponibilizarem suportes que possam ser lidos pelas pessoas com deficiência visual, designadamente em Braille, em carateres ampliados ou em áudio”.
“Este é o nosso próximo passo: pensar numa solução tecnológica, alertando para esta questão”, declarou.

Graça Gerardo afirmou que “não há um número total e certo de pessoas com deficiência visual” mas a ACAPO tem cerca de quatro mil associados.

A Associação está representada em todo o país com 13 delegações, algumas equipadas com bibliotecas específicas, e tem como objectivo constituir uma biblioteca temática sobre a questão da visão e da cegueira.

Fonte: http://www.hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=8392

Comentários

Olá!

Acho muito importante sensibilizarmos as editoras para que estas disponibilizem não só livros a tinta, mas também livros acessíveis para pessoas cegas, amblíopes, surdocegas e idosas.

É preciso abrirmos os olhos e encararmos a realidade: a discriminação e as barreiras são fruto do preconceito, o qual deturpa a verdade. Se olharmos à nossa volta, damo-nos conta da diversidade e de que todos temos as nossas limitações e necessidades. Se a nossa sociedade se move apenas em torno da visão, não haverá nada para os outros, excluindo-os em consequência disso da sua participação e do seu desenvolvimento plenos.

Eu costumo pensar que as crianças de hoje lêem cada vez menos, enquanto que as crianças cegas e surdocegas têm de se contentar com os poucos livros disponíveis em Braille... Por exemplo, não existe editado em Braille nenhum Dicionário de Língua Portuguesa actualizado, nem enciclopédias, nem materiais de estudo...

Não pensem que só me refiro às crianças, mas também aos jovens e aos adultos. A maioria dos deficientes são unânimes no que diz respeito à importância vital da leitura, e muitos, como eu, vêem a leitura em Braille como meio alternativo de obtenção de conhecimento, qualificação pessoal e profissional e como forma de lazer.

Louis Braille afirmou uma vez que os cegos poderiam libertar-se da ignorância em que eram mantidos através da leitura. Qual o cego que não estaria de acordo com ele? Pois foi graças ao Braille que conseguimos integrar-nos na sociedade com a nossa "nova visão", que nos faz enxergar muito mais longe do que a retina do olho.

Ah! Esqueci-me de vos dizer que sou surdocego adquirido e que foi em grande parte graças à leitura que superei a depressão. Pois conhecia e contactava com o mundo através das pontas dos dedos, divertindo-me e deleitando-me com os livros, que foram na altura os meus melhores amigos.

Até que enfim que temos iniciativas como estas, porque atrevo-me a afirmar que o cego lê mais do que o normovisual, que tem tudo mas não sabe dar valor ao que tem. E também me atrevo a afirmar que as editoras e os deficientes visuais ficarão a ganhar, pois terão um mais vasto público ledor muito interessado.

No entanto, entristece-me que até os cegos de hoje leiam cada vez menos, escravizados pelas tecnologias como os telemóveis e a Internet...