Olá a todos, após um longo tempo de ausência, motivado por uma sucessão de acontecimentos que me fizeram mergulhar numa grave crise emocional e me provocaram falta de inspiração e de vontade de escrever e recordar o meu passado, cá estou eu de novo para continuar a tão desejada história da princesa, com mais um tão ansiado episódio, a pedido de muitos leitores deste blog.
Mas vamos à história. Se bem se lembram, eu terminei o episódio anterior por volta dos catorze anos, numa altura de grande mudança na minha vida académica, num momento de transição, em que tudo indicava que a vida finalmente me ia começar a sorrir, contudo, essa indicação mostrou-se tremendamente errada. A minha vida continuou recheada de grandes dificuldades, apesar de ter encontrado, pela primeira vez, a amizade verdadeira de alguém da minha idade, que não olhava para mim como diferente, mas que me via como uma ajuda para a integrar. Com o início do décimo ano, novas emoções cruzaram a minha vida. Nos primeiros dias havia a ansiedade de conhecer os novos professores, os novos colegas, os novos possíveis amigos que eu cada vez menos acreditava que existiam. Esses primeiros dias revelaram-se uma linda surpreza, pois percebi, tal como já tinha dito no episódio anterior, que uma grande amiga, uma professora que me ajudou muito ia continuar comigo, o que me deixou muito feliz, pois jamais me sentiria sozinha e deslocada de novo. As funcionárias eram as mesmas, alguns colegas também eram os mesmos, mas havia pessoas novas na turma. Com as apresentações habituais, conheci uma grande amiga. Ela chama-se Patrícia, foi e continua a ser uma pessoa muito importante na minha vida. Ela marcou um ponto de viragem para mim e para o meu crescimento enquanto adolescente e pessoa.
A Patrícia vinha de outra escola, não conhecia o espaço, os colegas e os professores e tinha uma grande dificuldade em se adaptar a novas realidades. Ela viu em mim a pessoa ideal para a ajudar, alguém sempre disposta a dar tudo pelos outros e que nunca tinha tido uma oportunidade para se sentir útil daquela forma. Eu mostrei-lhe toda a escola e fui uma grande companhia para ela em todos os momentos, enquanto ela foi a primeira pessoa a aproximar-se de mim sem preconceitos, sem me olhar como alguém diferente, como a "coitadinha da ceguinha", mas sim como uma amiga, que a ajudava e a integrava na turma e na escola nova que ela, muito a medo, ia conhecendo. Esse décimo ano foi um pouco difícil, pois as matérias das aulas começaram a ser mais difíceis de acompanhar sem livros, contudo tive a sorte de me ser atribuida a professora de apoio mais fantástica que alguma vez existiu.
Apesar de todas as contrariedades, da falta de vivências típicas de uma adolescente de quinze anos, eu sentia-me bem, feliz por ter uma amiga e professores dispostos a ajudarem em todas as situações. Pela primeira vez eu saia da escola, eu ia para o centro da cidade como os outros adolescentes, contudo o amor continuava a ser algo desconhecido para mim. Apesar de tudo, eu continuava a sentir-me diferente, inferior e incapaz de amar alguém, de seduzir ou fazer com que alguém olhasse para mim como alguém capaz de amar e de ser amada. No décimo primeiro ano, mais uma mudança, desta vez para melhor. Recebi, finalmente, após tantos anos de pedidos e súplicas, o primeiro computador adaptado. Comecei a ter aulas individuais de informática com uma professora fantástica, que foi capaz de estimular em mim o gosto pelos computadores e o fascínio por poder fazer tudo como os meus colegas faziam. A partir desse momento, comecei a sentir-me mais igual, mais capaz e mais independente, pelo simples facto de ter um computador adaptado com um programa de leitura de ecrã, que me permitia ir à internet, fazer trabalhos e entregá-los aos professores já impressos a negro, tal como os meus colegas faziam. Até ao décimo segundo ano tudo foi correndo mais ou menos bem, sempre acompanhada com a minha grande amiga, que até hoje nunca mais me abandonou e com a professora que nunca deixou de me ajudar e de me apoiar, mesmo quando deixou de me ter como aluna.
Apesar desta aparente acalmia, uma nova emoção cruzou a minha vida nessa altura. Aos catorze anos, pela primeira vez, conheci um professor de mobilidade, que me ia ajudar a percorrer um longo caminho de aprendizagem, que iria culminar com a minha independência em termos de mobilidade. No início, eu recusava-me a ter aulas e a aprender qualquer técnica, pois tinha vergonha de andar na rua e de ser enterpelada por pessoas que me conheciam e por achar desnecessário aprender algo que eu achava nunca ser capaz de utilizar. Após um ano de grande resistência e difícil aprendizagem, houve um momento marcante, aquele em que o professor me pôs, pela primeira vez uma bengala na mão e me explicou que, com aquele objecto, eu nunca mais ia precisar de ser acompanhada, que iria ter a minha independência, que podia esquecer as escalas, as pessoas que me ajudavam por obrigação. Jamais vou esquecer esse momento, que mudou a minha vida e a forma de encarar aquelas aulas. A partir desse momento iniciei um período de três anos de longa aprendizagem, de muitas novas experiências, de muitas emoções de grandes alegrias. Jamais esquecerei o primeiro dia em que, pela primeira vez, percorri uma rua sem qualquer tipo de ajuda. Apesar da vergonha que sentia por envergar um objecto estranho e me cruzar com pessoas que me conheciam, nada perturbava a minha vontade de aprender e a minha ansiedade por independência.
Por hoje fico por aqui, volto em breve com mais novidades da princesa que cresceu e se tornou capaz de superar todas as dificuldades com um sorriso de esperança e de força.



Comentários
história da princesa
Submetido em Sexta, 07/12/2007 - 18:10 por Anacristinameu nome é Ana Cristina e fui, desde sempre um pouco afastada de todo o mundo até aos cinco anos, em que entrei para o instituto de S. Manuel. Foi uma experiência muito boa, porque via os outros lerem e havia sempre quem dissesse:
- coitadinha, nunca vai poder ler!
Sentia-me triste.
Até que um dia isso acabou!
Mas... há semelhanças entre nós. Quando me foi apresentada a primeira professora de mobilidade, tive medo e vergonha. Medo que me olhasse de maneira diferente, vergonha porque sabia que me iam ensinar a andar na rua e não ensinaram os outros.
E não queria aceitar o facto de ter que andar de bengala. Era uma coisa que marcava muito a minha pessoa. Todos iriam saber que eu era cega.
Até que percebi que estava a ser completamente idiota. E decidi mudar de ideias. E assim, a primeira vez que fui à rua foi significativo. Perdi o medo de pedir ajuda e senti que estava a dar um grande passo para estar junto dos outros.