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- blog de Anacristina

recordações

por Anacristina

Ah como pequenas coisas me faziam feliz!
O andar de triciclo no meio da rua, porque me sentia diferente, sentia adrenalina. Os carros abrandarem por minha causa, os apitos... e era a rainha naquele momento! apenas uma vez ia sendo atropelada quando ia atravessar para o tractor.
E quando as minhas primas vinham e eu cantava para elas, cantava muitas coisas, tinha jeito para a música! muitas vezes era eu que as inventava e elas adoravam ouvir-me. E todos que passavam onde eu cantava paravam para ouvir... eu tinha uma voz espectacular.
E quando fazíamos assaltos às amoreiras? ahahaha! era uma das partes melhores. Eu é que levava quase sempre as sacas para as amoras. Mas também gostava de seguir minhas primas e chegava a casa toda arranhada das silvas.
- Qualquer dia cais! - isto dizia minha avó.
- Olha... quem tem medo compra um cão! - dizia logo eu, preparando-me para outro saque.
No outro dia fomos às amoras novamente. Apanhávamos cada malada delas! uma vez até fiquei doente da barriga... e andei a chá naquele dia. E de noite sempre a levantar-me. O que mais me custou foi saber que os outros comiam coisa melhor que chá e bolachas...
Nesse mesmo dia, como era costume, aguardava de saca na mão pelas minhas primas. Mas estava farta de ser a que segurava a saca e decidi ir com elas. E... o "oráculo" da minha avó cumpriu-se. Fui porque tinha adrenalina, sabia mesmo a aventura!
E fazíamos sumos com amoras, comíamos à sombra com broa, falávamos e cantávamos. E ouvíamos os pássaros... e era feliz!
Mesmo quando as coisas mais trágicas aconteceram, quando fui para o hospital, nas situações extremas em que já ia a caminho do bloco operatório, cantei qualquer coisa que me fez parar aquele sistema nervoso que falava aos berros. Aquele medo de ir para o bloco operatório tinha de ser sacudido. E fiz como pude.
- Cantas? - perguntava minha avó.
E eu nada dizia. Quem canta, seus males espanta.
Cantava, para acalmar aquele medo de ser operada. Acreditava que assim não estaria de penso no olho como as minhas companheiras de enfermaria. Nem estava enfraquecida como elas. Nem estava ligada a soro, que desde sempre me assustava... era pequena e via as pessoas de meu quarto com uma agulha espetada na mão, com adesivo a segurar.
- isso dói?
E elas mal me falavam, com a anestesia ainda a fazer efeito. e eu acreditava que sim. Hoje tenho um pavor enorme de agulhas... talvez porque em pequena vi isto... e fomos amigas. Hoje ainda tenho contacto com pessoas que estiveram comigo na enfermaria. Fomos, apesar de tudo, felizes. As enfermeiras diziam que eu era traquina e que no fundo até tinha uma grande coragem. E eu para o meu íntimo:
- Não.
O sorriso tapa buracos infinitos.
E depois... quando pela primeira vez comi pizza! com o meu primo que já cá não está, mas acredito que apesar disto ele me está a ver, até acredito que foi ele que me pediu:
- Cristina, vais escrever isto. Faz-te bem.
E cá estou. Porque nem tudo é triste. Ele vinha todos os sábados à tarde e dizia:
- hoje vou fazer pizza!
- que é isso?
- vais ver.
E ele trazia o fermento, mandava ir buscar azeitonas, queijo, tomate... e ficava uma massa apetitosa. Punha no forno do fogão... o mais difícil era esperar. e íamos os dois de bicicleta. Mais umas aventuras! adorava andar de bicicleta com ele. e como era traquina, uma vez disse-lhe:
- Nuno, hoje sou eu que quero aprender!
- a bicicleta é grande!
- quero lá saber...
e assim foi, mas... caí!
E pronto, isto para dizer que nem tudo é mau. E para também avivar as memórias, para que o sofrimento não seja tão grande. Porque fomos muito próximos, e continuamos a ser!
Espero que estejas em bom lugar e que, tal como a mim, estas recordações te façam sorrir.

Comentários

Olá!

Ena... que aventureira!

Sem dúvida, que são recordações em que não só ficamos marcados pela negativa, mas sobretudo, podemos tirar bom proveito, através das experiências que vivemos com elas!

Bjs.

Tiago Duarte

Tiago Duarte

anacristina
Não tanto como antigamente, mas ainda hoje tenho o prazer da aventura.

anacristina

Olá Anacristina!

Quiz escrever algo que te incentivasse que ajudasse a combater a mágoa das más recodações e que salientasse o valor e a importância das boas recordações.

Tentei, mas não consigo encontrar as palavras certas, talvez amanhã ou noutro dia consiga... só te quero dizer qe recordar é viver!, que são as recordações que nos fazem crescer enquanto pessoas, e lembrar um poema que um dia referi neste blog " Um dia vou construir um castelo" de Fernando Pessoa, e recordo a resposta que me envias-te:

"Constrói um castelo, um castelo tão grande, tão grande onde caibam todas as tuas mágoas. Depois destrói-o. Destrói-o com todo o desprezo. E depois constrói um ainda muito maior que todos vão inveja do teu castelo"

As palavras são tuas. Não deixes de construir o teus castelo e nela guardares todas as tuas recordações, boas e más, para que sempre que queiras de fechares e as desfolhares, com o sentimento de que são únicas e são tuas...

Beijos.

anacristina
Olá, lembro-me perfeitamente deste texto que te escrevi.
Será um dia que construirei o castelo.
Obrigada pelo apoio. Todas as recordações são boas

anacristina

Anacristina!

Estou certa que um dia construirás o teus castelo! Mas lamento dizer que não concordo que todas as recordações são boas... elas seguramente existem as boas e as más, mas tenho muitas recordações más, e a única coisa de positiva ou boas que eles me oferecem é o facto de me terem ensinado que as coisas que aconteceram erradas que são recordações. São essas recordações que me levam a não cometer sucessivamente os mesmos erros, mas nem por isso são boas recordações.

Se bem percebi, e digo-te que imprimi o teu teu texto e tenho-o lido com frequencia. É um texto muito bonito, digno de fazer parte de qualquer romance histórico de uma determinada época. Mas tendo mais atenção na leitura, apercebe-mo-nos que nas recordações que relataste está descrito o destino de uma menina, que vejo que será tu, e está descrito o desgosto que qualquer pessoa sente quando perde alguém que é querido e proximo.

O texto é um testemunho que prova que "um amor nunca se esquece". O que vejo nos dias de hoje tudo perdeu a importancia, desde os sentimentos, das recordações, as origens de tudo o que somos hoje, esquecemos quem nos acompanhou, os amigos que partiram, as pessoas que nos marcaram e morreram, os amores, as paixões e tantas outras coisas... As pessoas agoram são egoístas, e materialistas, e vivem para tramar e passar para trás o próximo.

Já se perdeu tantas coisas, coisas que todos vivemos, e a maior parte recorda, mas não revela. Mas sobretudo perderam-se todos os valores éticos e morais, que a mim me foram transmitidos em casa de pequenina.

Preservo-os, tento transmiti-los às crianças que me rodeiam. Não tenho e nunca poderei ter filhos, e a esses nunca lhes vou poder transmitir esses valores, que me transmitiram de pequenina em casa. Um dia eu serei uma recordação para algumas pessoas, e como custumo dizer às minhas crianças que sou a tia má, não serei para algumas delas mais do que isso a recordação da tia má.

Espero ser uma boa recordação para essas crianças, mas também posso ser ma má recordação, ou não ser nada.

Todo é possivel nos dias de hoje...

anacristina
Como tudo, nem todas as recordações são boas. Talvez essas más recordações nos ensinem alguma coisa...
Construirei o castelo, embora as recordações boas ainda sejam poucas. Tenho recordações muito vivas que ainda me fazem pensar que... que... acreditem, nem consigo bem ainda dizer. Há dois meses que isto aconteceu e não consigo dizer a estúpida palavra.
Sim, este texto foi mais dedicado ao Nuno. Acredito que veio da mão dele, que foi ele que quis que eu escrevesse isto num momento menos bom, para que me mostrasse que está presente. E está.
As recordações são isto: sorriso, lágrima, aventura... sei lá que mais.
E o meu obrigada. Alguns textos são melancólicos, mas são mesmo os meus sentimentos. E... romance histórico?! talvez um dia, se tiver cabeça para isso.

anacristina

O que valem são as boas recordações!
Mesmo que passamos por momentos difícieis e muito dolorosos as vezes, isso não importa, sabe porque?
PORQUE QUANDO AS DORES PASSAM SÓ FICAM BOAS RECORDAÇÕES!
São elas que valem, mais nada!

Beijos. E parabéns pela mensagem!

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