Está aqui

Para lá do cilêncio, para lá da luz

por Lerparaver

Revista Pública - 21 de Julho de 2002

Texto Duarte mexia - Fotografia: Dulce Fernandes

Surdocegos

Feche os olhos, tape os ouvidos, imagine a sua vida assim para sempre!

Apesar da perda das cores e dos sons, a vida continua a fazer sentido, continua a haver lugar à felicidade, ao crescimento, ao futuro. É isso que se ensina todos os dias no colégio António Aurélio da Costa Ferreira, em Lisboa, o único centro para surdocegos em Portugal.

Com um pequeno lenço tape os olhos. Teça pequenas bolas de algodão e ponha-as nos ouvidos. Agora, levante-se, caminhe, usufrua do seu mundo, do que está à sua volta. Construa qualquer coisa. Não desista ao primeiro esbarrar com as dificuldades, com o choque contra uma mesa, uma cadeira fora do lugar, uma casa que não conhece. Não se assuste se alguém de repente tocar em si, se não ouvir a sua própria voz. A experiência acabará quando quiser, passados apenas uns minutos, uma hora, um dia... A experiência pode dizer-lhe muito: "os sentidos são a chave de quase tudo o que conhece. A chave do prazer. Da sua personalidade. É com os sentidos que fazemos as nossas escolhas perante o mundo".

Ser cego é uma pessoa não ver. Ser surdo é não ouvir. Ser surdocego é muito mais do que a soma das duas deficiências... Esta é a primeira lição, uma espécie de lei que se aprende ao passar da porta do Colégio António Aurélio da Costa Ferreira, em Lisboa, o único centro no país para surdocegos. Ser surdocego não significa necessariamente não possuir os dois sentidos: há quem veja um pouco e nada oiça. Quem apanhe alguns sons e tenha ainda resíduos das cores e dos movimentos. Quem tenha nascido sem nenhum dos dois sentidos. E quem sentiu aos poucos a perda a marcar-lhe a vida, hora a hora, minuto a minuto. O mais terrível foi quem, de um momento para o outro, passou a ver só silêncio e escuridão. Grande parte das histórias de surdocegos é isso mesmo, a perda sucessiva dos sentidos: visão, audição... e quem sabe, paladar e tacto.

Quando se nasce surdocego não se sabe que o mundo é diferente. Não se sabe que existem cores, números, pode-se até nunca descobrir a "noção do eu". É o acto de aprender que nos distingue dos outros. Quando os nossos olhos nos mostram o mundo e os ouvidos os sons, há que aproveitar cada momento para aprender e preparar as competências para o que a seguir virá. Para um surdocego há metas que se impõem como um destino traiçoeiro. Pode iniciar-se a aprendizagem do Braille, a linguagem gestual... Guardar todas as imagens e sons no fundo da memória para que os sonhos sejam sempre coloridos e sonoros. O difícil será sempre aprender a viver com as perdas e esquecer a pergunta: "porquê eu?"

No interior há um pátio quadrado, a cada um dos cantos existem quatro diferentes casas: amarela, verde, vermelha, azul.

Cada uma corresponde a uma sala diferente, a uma equipa de educadores, a um trabalho específico... E claro, a um grupo muito particular de utentes - a palavra correcta, porque alguns já não são crianças.

Todos os espaços estão marcados por texturas, o relevo do chão permite-nos saber onde estamos mesmo com os olhos fechados. A pequena subida no piso anuncia uma porta.

O quadrado em pedra picada no chão informa: escadas. O frio do corrimão guia-nos no descer e subir dos degraus. As texturas e as cores das portas dizem se se trata de um quarto, uma casa de banho... Cada quarto tem o nome e o símbolo de quem lá dorme. No jardim, os caminhos de tijoleira estão entrincheirados entre o piso de pedrinhas. Assim, todos dominam o espaço... De repente, uma trottinette aproxima-se, um miúdo de 14 anos acelera a grande velocidade. Pressente-nos, afasta-se, e continua. Não ouve, apenas vê sombras muito reduzidas do que tem à sua volta. Ignora-nos mas sente-nos. Um as voltas mais tarde, a trottinette pára, o Ricardo senta-se num banco a abanar um pequeno lápis sem bico em frente dos olhos. Fica assim quase uma hora, a ver o movimento, ou o que resta dele.

As "nossas dores são só nossas", é difícil pormo-nos no lugar de outra pessoa, saber como vive as suas frustrações, o seu sofrimento. Apenas sabemos que estas crianças também têm depressões. Há dias que não comunicam com ninguém, "baixam a cabeça e pronto". O gesto repete-se, sobretudo, quando há perdas progressivas das capacidades. Alguém recorda um filme antigo e remata: "sentem-se filhos de um Deus menor".

São oito e meia da manhã. As crianças depois de se vestirem e de se arranjarem descem dos quartos do primeiro andar. Sobre a mesa da sala há um sem número de embalagens de cereais para o pequeno-almoço. Há ainda leite, chá, sumo, iogurtes, pão e bolo. Doces. E há que escolher. É destas pequenas escolhas que se definem as personalidades de cada um quando o vocabulário é tão reduzido. Cada opção, cada escolha funciona como forma de marcar o espaço de um indivíduo. A seguir, vêm as actividades, basta ver o calendário, alguém tem por missão de lavar e arrumar a loiça na pequena cozinha de apoio da sala amarela. Durante o dia a lista de trabalhos e actividades muda consoante a sala e a criança em questão.

Tudo o que é feito é anotado numa espécie de diário - os cadernos -, a anotação pode ser através de um desenho, um sinal, ou frases escritas pela criança ou por um adulto se esta ainda não domina as escritas. Quase todos os miúdos têm tarefas, responsabilidades, aprendizagens, jogos. Há a culinária, os passeios, os puzzles pedagógicos, a ginástica, a piscina, a hipoterapia, o recreio, o atelier de artes plásticas. Vamos visitá-lo?

Nas paredes do atlier há máscaras de gesso com a cara de algumas das crianças. Há barro, carpintaria, pinturas... Entramos. A EzaniIza está a acabar uma jarra em barro. Está nervosa. As arestas não ficaram como a sua perfeição lhe exige. Acaba a obra com o desenhar em relevo de um ramo de flores com a ponta de um lápis. Depois, num emaranhado de gestos e alguns sons distorcidos de quem já ouve faz tempo, informa que quer que a Juliana - outra menina que ainda tem alguns resíduos de visão - venha pintaras flores. "A Ezanilza tem muita confiança nos olhos Jú."

Na sala vermelha os meninos têm menos capacidades. Quando um menino aprende a mastigar, a novidade é tida como uma vitória estrondosa. E no dia seguinte ele pode esquecer todo o trabalho feito. No chão está "o Bebé". Um menino de cinco anos que ainda não tem um diagnóstico completo das suas deficiências, e com uma saúde muito débil. Foi adoptado, rebaptizado e amado. A sua história é simples: já nasceu para ser adoptado, só que quando os novos pais souberam que afinal tinha uma doença, desistiram. A médica do hospital foi-se apaixonando pelo caso, levou-o para casa, serviu de família de acolhimento. Até que um dia descobriu que o Frederico - é assim que lhe chamam - fazia parte da família. Agora o tribunal também decidiu que assim será por muito tempo. Frederico adora as luzes fluorescentes na câmara escura. Adora brincar no chão e logo a seguir ao almoço vai para a porta à espera que o novo pai chegue para o levar.

Antigamente, muitos meninos não reconheciam os pais, quando os passaram a reconhecer foi uma grande vitória, uma conquista progressiva, um sinal do muito trabalho em conjunto com as famílias.

Noutra sala, o Bruno conta com a voz muito presa que no fim-de-semana comeu caracóis e bebeu cerveja. Já passou a barreira dos vinte anos há algum tempo. Conta ainda que foi cortar o cabelo e remata a sua descrição com a notícia de que a irmã teve um bebé. "O Bruno só gosta de pessoas que usem gravata. No ano passado após uma febre ficou em coma. Perdeu grande parte das aprendizagens do passado, agora, está a reencontrar-se outra vez". Sempre que lhe apresentam uma mulher, invariavelmente, pergunta: "Queres namorar comigo?".

O trabalho com os pais é sem dúvida um passo importante, desse trabalho nascem muitas vezes novas esperanças para quem já não as tinha, ou para quem sem querer, as tinha arrumado algures numa gaveta perdida. É muito importante ir passando toda a aprendizagem que se realiza para casa, "cada gesto novo, cada nova competência, saber partilhar as dificuldades e também os sucessos, as esperanças e os sonhos." A grande maioria das crianças vai a casa de quinze em quinze dias, mas há também quem vá todos os fim-de-semana, todos os dias... E há os que permanecem na instituição sempre...

Será que por serem cegas e surdas estas crianças e estes adultos perdem a noção do mundo? Viajar, para eles, fará algum sentido? Claro que sim. As viagens de estudo e as férias são uma componente muito importante, uma forma de motivar alunos, educadores e famílias. Há colónias de férias em conjunto com os pais uma vez por ano. E com direito a praia e tudo. Visitas aos lugares históricos e mil passeios. Todos os meninos já brincaram com neve da Serra da Estrela - um deles levou a brincadeira tão a sério que se despiu totalmente para que o contacto com o frio fosse maior. Já conheceram as belezas de Alcoutim. Fizeram troca de instalações com uma instituição espanhola que lhes permitiu que conhecessem a cidade de Vigo. E com algumas artes para levarem água ao moinho e patrocínios bem negociados, no ano passado foram à Madeira durante uma semana. "Eles apercebem-se claramente que estão em lugares diferentes". Estes passeios, para além de servirem de estímulo, servem como tema de trabalho nas semanas antes e depois da partida.

E se pensa que o dia-a-dia destas crianças é de clausura no colégio está muito enganado, eles vivem as pequenas coisas da vida: vão ao cinema, ao teatro, ao McDonalds... Adoram a sensação do silêncio na pele, as pipocas, as vibrações a tocar no corpo, os resíduos de cores no fundo do ecrã. Nunca vão a lado nenhum sem saberem o que vão fazer, "antes de cada passeio é feito muito trabalho, conta-se a história, trabalha-se o tema". E também há viagem, os transportes públicos, a escolha dos caminhos, tudo decidido por sinais e gestos.

Há pouco tempo, visitaram a quinta pedagógica, decidiram almoçar num restaurante: "os miúdos pareciam uns doutores a comer... O dono do restaurante, depois das primeiras reservas, acabou por convidá-los a voltarem". O mesmo se passa no cabeleireiro, na depilação, só não vão às discotecas. Mas se Maomé não vai à montanha... No ano passado, uma empresa montou uma discoteca no refeitório do colégio: "eles adoraram". Tal como adoram as visitas à Feira Popular: "andam em tudo!". Num dos passeios, pararam numa área de serviço na auto-estrada, e orgulhosos os educadores ouviram a frase: "há aí muita gente que anda e vê mas são bem mais deficientes! ".

A conversa foi muito mais fácil do que podia parecer: uma das educadoras coloca-se à frente do Tó Zé e cada um deles agarra as mãos do outro. Começa a dança das mãos, da linguagem, da mensagem transmitida por gestos: a utilização da linguagem dos surdos através do tacto. De fora parece um "pas de deux" no silencio. É difícil fazer a primeira pergunta, apenas sabemos as palavras, mas estranhamente tentamos pensar em gestos. To Zé faz encadernações na Biblioteca Nacional, antes produzia as capas dos livros, mas como foi perdendo a visão foram-lhe dando trabalhos mais básicos onde pudesse apenas trabalhar com as mãos. Agora, cose as lombadas dos livros. Para além do trabalho, gosta muito de conversar, ir à associação de surdos, e "é um festeiro". Têm uma filha, Uma adolescente que nasceu de um casamento que já acabou. A filha sabe a linguagem gestual, juntos vão para a noite, para os bares, e claro, às compras nos centros comerciais e ao café. Um dos passos mais importantes na vida do Tó Zé foi uma viagem que realizou à Bélgica a um congresso de surdocegos. Foi um marco na sua vida, conheceu muitas pessoas na mesma situação. Em Portugal não há muitas pessoas com o mesmo problema a viverem na sociedade de uma forma activa. Descobriu que nos outros países existem mais soluções, outras formas de resolver os problemas a pessoas como ele. "Há mais lugares para as pessoas que não produzem tão rapidamente." A viagem abriu-lhe novos horizontes e sobretudo recebeu informações de como criar uma associação de surdocegos. Dá vontade de lhe perguntar se ele se considera uma espécie de herói O problema é que este conceito não existe na linguagem gestual. Acabamos por perguntar: consideras-te uma pessoa importante por tudo o que já conseguiste? "Não, não me sinto importante, mas sei o meu lugar na luta para o alerta do Governo e da sociedade para a necessidade que temos de intérpretes para quando vamos a um médico, a um tribunal... Temos que arranjar formas de acabar com as barreiras da comunicação."

Tó Zé assume que é vaidoso, gosta de estar bonito, de ter roupa a condizer, perfume. "Gosto de me mostrar bem." Mas como é que ele sabe se gosta de uma coisa? "Sente-se através das mãos. Os amigos às vezes ajudam-me a comprar as coisas. Dizem se é muito verde, ou mais azul..." Surge outra pergunta: lembras-te das cores? "Sim, mas agora já não as vejo". A conversa continua, a páginas tantas a tradutora desabafa: "estou a ficar doida, como e que eu vou dizer-lhe isto!". To Zé com as suas perguntas logo arranja uma maneira.

Uma miúda dança agarrada as colunas de som. São as mãos que apanham os sons

No refeitório, no meio do silêncio, o barulho ganha espaço, o que se ouve ouve-se bem. E os sons ganham outro peso. Apesar de não ser mais barulhento do que um restaurante à hora de ponta, os sons ganham novos contornos. Começa a estranha dança dos tabuleiros. Os miúdos mexem-se pela sala com total a vontade, com os tabuleiros nas mãos esperam em filas que alguém os sirva, depois voltam para o seu lugar, sentam-se e comem. É raro os miúdos interagirem uns com os outros, é mesmo muito raro, e quando isso acontece é devido ao estímulo dos educadores. Cada um tem o seu caminho, o seu lugar, e há quem leve isso muito a peito. Algumas crianças, umas vezes por defesa, outras por teimosia, fazem sempre o mesmo caminho, têm rituais... E isso provoca choques - e aqui a palavra pode até ser bem mais abrangente.

No meio da sala, uma miúda dança agarrada às colunas da aparelhagem, Quando a música não tem suficientes baixos para sentir o ritmo, muda a estação de rádio. Dança, mexe o corpo, as ancas, a cabeça. Todo o corpo gira, as mãos apanham os sons com se fossem um passador. O ritual repete-se e quem vê sente-se um intruso.

No recreio, em cima de um cavalinho de pau e mola que oscila está a Catarina. Ela conhece bem o espaço, apesar de não ouvir e não ver nada, mexe-se com total à vontade. Trata os baloiços por tu. As suas mãos mexem-se numa estranha dança. O que se passa? "Ela está a pensar." E logo alguém traduz: "o cavalo parou! " Há quem pense com palavras, há quem pense com gestos. No colégio, os pensamentos muitas vezes não têm segredos para quem sabe ler os significados nas mãos. Com um movimento forte, a Catarina volta a balançar o cavalo de pau na mola. Os cavalos são a sua paixão, graças aos cavalos - verdadeiros e não de pau - o seu corpo ganhou uma nova postura, passou a ter um melhor relacionamento com os outros. Os seus dias tornaram-se diferentes. O seu calendário passou a ter como referência os cavalos... ou como os adultos gostam de chamar: o tratamento de hipoterapia.

Ao fim do dia, os miúdos vão tomar banho e arranjar-se. Tirando os mais pequenos, todos fazem as tarefas mais elementares sem precisarem de ajuda. "É muito importante torná-los o mais independentes possível." Como os olhos não vêem e ali nunca aparecem desconhecidos, não há grandes pudores quando se tira a roupa. Cada um segue em frente, lava os dentes, faz as necessidades mais elementares, despe-se, toma banho, veste o pijama. As gavetas das cuecas têm pequenas cuecas recortadas coladas por fora, o mesmo se passa com os soutiens e o resto. Uma criança de dois anos está sentado no penico, mesmo sem fazer nada é obrigado a permanecer... é assim que se conquista cada passo rumo à independência.

As educadoras, como um maestro, vão orientando as operações com gestos tocados. Parece mímica. Sempre que transmitem as suas ordens e conselho,, dizem em voz alta* o que falam com a mãos. Porquê? A resposta é simples: "senão era tudo um silêncio! O engraçado é que mesmo quando nos respondem as mãos não param.

O calendário e o tempo passam com ritmos diferentes dentro deste colégio, mas o Natal e as festas populares nunca passam sem festa. Para o Natal deste ano, cada pessoa recebeu em casa, juntamente com o convite, uma estrela amarela com o seu nome, Antes do almoço de Natal, os meninos representaram uma peça de teatro sobre O Príncipezinho. Pais e amigos foram ver a representação. Um trabalho de equipa que mobilizou muita gente.

No Colégio vive também um pequeno grupo de meninos sem deficiências - os "ouvintes" -, esses meninos vão muito em breve para outros lares da Casa Pia de Lisboa, instituição que tutela o colégio. Uma opção a pensar no seu desenvolvimento e nas suas necessidades; mas, também no espaço, para o Colégio poder desenvolver novas valências.

Os meninos "ouvintes" também entraram na peça de Natal. Para além de lerem as falas de cada personagem, orientaram, vestidos de preto, os meninos surdocegos no palco improvisado. "Parecia um espectáculo de marionetas a fingir". Todas as personagens estavam vestidas e maquilhadas para representarem os seus papéis. A semelhança destes meninos com o Príncipezinho é incrível: "Todos eles nos marcam com as suas diferenças e o seu cativar... Com a sua magia.

No final da peça, meninos, educadores, empregados e pais colaram as estrelas amarelas com o seu nome no cenário azul da parede Um céu azul ficou iluminado de estrelas amarelas. É que tanto nesta escola como na vida, o mundo só se faz com a participação de todos. toda a gente tem o seu lugar, mesmo que para lá do silêncio, mesmo que para lá da luz.

Comentários

Fiquei sem palavras! Tenho uma coisa em comum com a Catarina: os cavalos também mudaram a minha vida!
Acho que a vossa instituição deve ser maravilhosa... nem sequer tinha conhecimento da sua existência!
Só posso dizer: CONTINUEM!!

"Em relação aos deficientes, os deficientes somos nós (as pessoas "normais")!"

Para quem não é portador de deficiência visual, auditiva, ou quaisquer outras (aparentemente), é mais ou menos natural que sinta dificuldade em perceber como algumas situações se desenvolvem na vida das pessoas portadoras de tais deficiências. É de valorizar o "modus vivendi" dessa gente, assim como merece ser felicitado todo aquele que possibilita a aprendizagem e o cresimento pessoal dessas pessoas, que se tornam cidadãos activos para a sociedade (directa ou indirectamente).

Sobre aqueles que quis o destino (por alguma razão) fossem totalmente cegos, além de surdos e mudos, conforme pude ler em tempos, numa noticia alusiva ao casamento de um casal simultaneamente cego-surdo-mudo, pergunto-me ainda que a medo, se alguém se importará de me explicar como é que uma pessoa portadora destas múltiplas deficiências vem a conhecer uma outra de igual condição, por quem se vem a apaixonar, namora casa e passa a partilhar uma vida em comunhão. como manifesta o que lhe vai na alma e capta o que vai na alma do outro (preocupações, alegrias, dúvidas, necessidade de diversa natureza...) E como se trava o relacionamento ciberñético entre ambas, no caso de se conhecerem por essa, via, como foi o caso do dito casal que foi unido pela santa igreja, recentemente, em Itália?

A natureza é fantástica e os desígnios de Deus são insondáveis, como sempre ouvi dizer, mas não conhecendo a realidade sobre a qual expus a minha profunda curiosidade e curiosidade de muitas outras pessoas, também..., com o devido respeito e simpatia por tais pessoas, gostaria de pedir que alguém saciásse esta minha inquietação, sem levar a mal. Sei por experiência própria, que os sentimentos verdadeiros brotam de um coração puro, em nada materialista, o qual encherga o que de mais belo a mãe natureza tem para dar à vida e disso mesmo se alimenta, porque isso lhe basta e disso mesmo se orgulha! Eu própria vi o meu coração apaixonar-se por um invisual, sem contar, mas quis o destino, ou alguém que não eu, que não houvesse lugar a um honesto e lindo relacionamento amoroso entre os dois, dotado de maturidade, respeito pela diferença e confiança mútua... restou-me a possível Amizade, se a conseguir ver, na prática, correspondida!
Posto isto, muito humildemente peço desculpa pela confidência e pela ignorância manifestada na questão levantada.
Antecipadamente agradeço a vossa atenção, despedindo-me com os votos sinseros de um excelente ano 2007 para todos quantos visitam o lerparaver e desejo a continuação de muita paz no coração de todos!