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- blog de Jorge Patrício

Inflamações dos olhos

por Jorge Patrício

Inflamações dos olhos

Se ao acordar as pálpebras não desgrudam, unidas como uma persiana que teima em não deixar entrar a luz, se os olhos lacrimejam, enevoados por uma secreção aquosa ou purulenta, o mais certo é ser conjuntivite. Uma inflamação altamente contagiosa.

Nesta altura do ano as conjuntivites estão nas suas «sete quintas». As crianças já regressaram à escola, as mais pequenas ao infantário, partilhando brincadeiras e brinquedos, tocando-se, levando as mãos aos olhos, tocando-se novamente. Não há melhor ambiente para uma conjuntivite. Facilmente se propaga, visível na vermelhidão lacrimejante dos olhos de uma criança após a outra, para desespero de educadoras e pais. É que a conjuntivite é altamente contagiosa e a sua declaração numa criança é, por regra, impeditiva da sua presença no infantário, de modo a resguardar tanto quanto possível o resto da classe.
Apresenta-se de surdina, discreta num olho que parece chorar, num pequeno ponto de pus que se encaixa num recanto. Depois, desenvolve-se quase sempre na calada da noite, mostrando-se subitamente quando, ao acordar, a criança mal consegue despegar as pálpebras, coladas uma à outra por uma secreção mais ou menos transparente e gelatinosa. Quando finalmente se separam revela-se uma espécie de cortina aquosa a cobrir a vermelhidão do olho.
Muitas vezes, essa secreção evolui, ganhando uma tonalidade amarelado e um aspecto purulento, como se os olhos tivessem sido pincelados a pus. E incomoda, incomoda até muito, fazendo com que as crianças levem as mãos aos olhos, esfregando em busca de alívio. Mas com este gesto – que é difícil conter – em vez de alívio, o que acontece é que a inflamação passa rapidamente de um olho para o outro. Está aberta a porta do contágio, já que as mãos que tocaram nos olhos inflamados tocam depois em objectos que outras crianças vão partilhar. Tocam em pequenos e graúdos, levando também a estes uma doença que é mais frequente nas crianças mas pode «atacar» todas as idades.
A cada um a sua conjuntivite
Este é quadro mais conhecido e de alguma forma transversal a todos os tipos de conjuntivite. São três e distinguem-se consoante a origem da inflamação. Assim, a conjuntivite pode ser alérgica, resultando de uma reacção dos olhos à poeira, ao pólen, a cosméticos, lentes de contacto, fumo, pêlo de animais e contacto directo com água tratada com cloro. Pode igualmente ter manifestações sazonais, andando então associada a alergias como a chamada febre dos fenos.
Vírus e bactérias dividem, no entanto, a maior fatia das responsabilidades, a eles se devendo o carácter infeccioso e contagioso da conjuntivite. A principal diferença consiste na duração do incómodo: se o agente infeccioso é viral, os sintomas podem desaparecer em dois ou três dias; já se for bacteriano, as melhoras demoram mais algum tempo, sendo precisas uma ou duas semanas para que os olhos retomem a boa forma.
Independentemente do agente agressor, tudo começa por um «ataque» à conjuntiva, uma fina membrana que cobre o branco dos olhos (esclera) e cuja função é produzir muco para proteger e lubrificar a superfície ocular. Normalmente, a conjuntiva possui vasos sanguíneos visíveis bem de perto. Ora, quando se dá a agressão, esses vasos dilatam, ficam mais proeminentes, tornando o olho vermelho. A vermelhidão é, aliás, a única forma que a conjuntiva, sendo um tecido simples, tem de reagir aos estímulos. E esse é o primeiro sinal de conjuntivite.
Mas, atenção, por trás de um olho vermelho nem sempre está uma conjuntivite. Muitas outras doenças oculares – como o glaucoma - se podem aí esconder, devendo ser pois procurado o conselho de um oftalmologista. Sobretudo se a vermelhidão for acompanhada de outras sintomas como dor forte, elevada sensibilidade à luz ou visão desfocada.
Veja bem onde põe as mãos
As mãos são os principais inimigos dos olhos, falando de conjuntivite é claro. É que são elas o agente do contágio. Perante a sensação de areia nos olhos que acompanha a secreção e a vermelhidão, o gesto mais automático e compreensível é esfregar. Mas, além de ser perigoso, pois pode irritar a conjuntiva, este gesto é o caminho mais rápido para levar a doença a outros olhos.
Lavar as mãos com frequência é – este sim – um gesto recomendado. Tal como não partilhar toalhas nem maquilhagem, igualmente veículos fáceis de propagação da conjuntivite.
E mesmo no cuidar dos olhos doentes é preciso ver bem onde se põem as mãos. Na aplicação do colírio habitualmente usado no tratamento é de evitar o contacto dos dedos com o líquido ou a pomada, tal como é de evitar que o próprio medicamento toque nos olhos. Deve-se deixar cair uma gota na zona afectada e fechar os olhos para que se espalhe. Antes e depois desta operação, as mãos devem ser lavadas, sempre em nome da prevenção.
É de facto com colírio que se combatem as conjuntivites, mas o vulgar soro fisiológico também ajuda e muito. Compressas várias vezes ao dia aliviam, ao mesmo tempo que limpam os olhos das irritantes secreções. De qualquer forma o tratamento deve ser feito com moderação, porquanto os olhos são órgãos extremamente sensíveis.
Sinais de infecção
Estão bem identificados os sinais que denunciam uma conjuntivite. São eles:

- pálpebras inchadas e coladas, sobretudo ao acordar
- olhos vermelhos
- sensibilidade à luz
- visão enevoada
- sensação de areia nos olhos
- secreção aquosa ou purulenta
Cuidados básicos
Há algumas regras que, se respeitadas, permitem prevenir o contágio. Quase todas passam pelas mãos:

- lave as mãos com frequência
- não toque nos olhos
- não encoste o frasco do colírio ou a pomada ao olho
- não partilhe toalhas
- não use maquilhagem de outras pessoas
- não use lentes de contacto enquanto durar a inflamação