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Áudio-descrição: Opinião, Crítica e Comentários - blog de Francisco Lima

Os Cegos na Vida Prática

por Francisco Lima

Prezados,

Dando a este post o nome que intitula o extrato abaixo, quero mostrar como escritos tão "antigos" podem ser tão recentes.

Ao contrário do que mostrei aqui outro dia, com os escritos daquele Padre, este texto contribui para a melhor visão da pessoa com deficiência visual na sociedade.
Espero que possam apreciar, pois.

Os cegos na vida prática

Há quem afirme que os cegos conhecem as cores através do tato. Puro conceito falso, a pele humana não percebe as variações da luz. O que deve ter ocorrido
para esse mito sobre os cegos, além das generalizações apressadas, é que a cor vem, de fato, em certas situações, ligadas a condições perceptíveis ao tato
ou ao ouvido. A dos cabelos, por exemplo, se é loura, vem na dona de uma voz macia e cristalina, sem artifícios. Os cabelos são leves, bem soltos, finos
e sedosos. Se ondulados, exibem ondas largas, elásticas e espaçadas. Se negros, os cabelos são lisos, bem corridos e grossos, ou de ondas estreitas, juntas
e teimosas, quando for o caso. Há cegos que distinguem a cor dos cavalos, por certas particularidades no pêlo do animal. Outro exemplo é o canto dos canários
belgas também denuncia a cor da plumagem.

Assim vai o cego, tirando, do mundo a seu alcance, os dados com que interpreta e constrói o mundo da visão. Há uma noção de estética que lhes permite saber
a significação social de certas cores, e a situação provável em que se ncontram. Sabem que os homens não são azuis, que os cães não são verdes e que o
vermelho não é tristeza. Mas não dão prova honesta de fazerem nenhuma idéia desta ou daquela cor.

Andar sem guia nos grandes centros, geram uma mística em torno dos cegos, dizem que eles contam passos sem fim, calculam distâncias enormes, controlam postes
de bonde, estação de trem, ou então atribuem tudo a um poder sobrenatural. E na verdade o que existe é um esforço de adaptação , uma vitória sobre o complexo
de inferioridade.

O tato aflora na pele, através da sola do sapato; percebe?se o solo em que pisa: se é de asfalto, tacos, soalho, pedras ou outros ? nada lhe escapa. As
costas da mão de raspão numa parede, a manga do paletó rosnando num vestido, tudo, o tato pronto determina fornecendo elementos à orientação. Em tudo há
uma aplicação da inteligência, na interpretação dos escassos dados dos sentidos pobres e de pouco alcance.

A terra grossa, numa rua limpa, avisa a possibilidade de um buraco próximo. A tábua encontrada solta, um tropeção no meio da calçada, sugere a existência
de um cimento fresco em que não se deve pisar. O ruído da lamparina do soldador ou do martelo na talhadeira do pedreiro levantam hipóteses de caminho atrapalhado.
O cheiro da tinta fresca desperta cuidados para não sujar a roupa.

Nos passos, tem a memória das distâncias, mas não os fazem calculados, como muita gente pensa. O que os guiam são os estímulos sensoriais no percurso, como
o cheiro das frutas nas portas das lojas, o cheiro do ar condicionado (e do dinheiro) nos bancos, o cheiro do pão na padaria, o cheiro do remédio nas farmácias...

Só quem tenha vivido sem os olhos sabe o quão preciosa é a voz para penetração da personalidade alheia. Deposita?se confiança ou suspeitas pela voz, assim
como os videntes o fazem pela cara; sente?se simpatia ou antipatia ao primeiro encontro pela voz. Os diferentes sentimentos com que lhes dizem as coisas,
a intenção com que lhes dirigem a palavra, tudo é percebido.

Além disso, o cego também possui outro instrumento de compreensão, o “aperto de mão”, o qual pode ser cheio, forte, efusivo, prolongado, minguado, frio,
escasso ou rápido.

Há várias maneiras de reconhecimento do indivíduo que não visualmente: o cheiro próprio do suor, o ritmo, o cigarro, o perfume, o ruído da respiração, enfim
infinitas coisas que o cego sabe valer.

O interesse é que sejam aqui apontados recursos de que os cegos se valem para superar as dificuldades, a cada passo surgidas para eles na vida prática.

Viajando sós, sabem quando encolher as pernas para dar passagem a alguém que sai, se esse alguém estava sentado ao seu lado. Sentem também quando voltam
à posição no banco, pela simples variação no assento ou nas costas do banco, determinada pela ausência de peso da pessoa.

Discar telefone, também é uma tarefa para o cego. O cego apenas não se utiliza dos olhos para se relacionar com o mundo, ora todos os seus outros sentidos
estão aguçados.

Sentidos esses que são SENTIDOS no corpo todo. Todo o corpo trabalha para que um DV tenha todas as sensações que um vidente venha a ter. Como foi dito por
eles na nossa entrevista, a sociedade é hipócrita e para ser feliz, devemos enxergar. Deveríamos pois parar e refletir sobre isso. Faz sentido o que eles
nos disseram. Ser cego é uma oportunidade para sentir (literalmente) o mundo de uma forma diferente, não uma maneira de fazer com que os outros sintam
piedade deles.

Retirado de:
A VIDA DE QUEM NÃO VÊ
J. Espínola Veiga
371.911 - V426
O romance da vida
Memórias de um cego
Psicologia da educação
Vida de vários cegos
Confissões e relatos desassombrados do que o autor e outros cegos sentem, sofrem
e gozam por não verem.
1946
Livraria José Olympio Editora

Comentários

Caro Francisco,

Adorei o artigo que postou, porque o que foi dito do princípio ao fim é verdade, e eu próprio o pude confirmar com a minha experiência de cego na vida prática.

Quão grande é a ignorância da sociedade! Cabe a nós, pessoas com deficiência, mostrar que os mitos criados em torno do cego não têm qualquer fundamento.As pessoas constroem as suas ideias através de características exteriores sem no entanto investigarem a verdade. Ficam-se portanto pelas aparências e pelo que é superficial, e constroem os seus preconceitos que podem dificultar uma relação humana genuína caso não haja um contacto directo com
a pessoa cega.

A pessoa cega é tal qual como todo o ser humano, cuja inteligência lhe permite adaptar-se ao meio. Eu, como cego e surdo, disponho dos outros sentidos para apreender o mundo que me cerca e que comunica comigo através dos mais diversos estímulos. O cego não tem os sentidos aguçados, como a sociedade pensa que ele é especial e dotado de capacidades extraordinárias. Na realidade, por força da necessidade de adaptação, o cego está mais atento aos estímulos que lhe chegam aos sentidos, os quais lhe fornecem pistas importantes para saber onde está, como está o tempo, em que posição estão os objectos, com que tipo de pessoas está a falar, etc.

Quando a isso das cores, sou de opinião que associo sensações táteis a cores, mesmo que a sua significação se desvie dos padrões culturais. Eu penso que cada um atribui a sua própria significação.

Eu antes de cegar, nem sabia que existiam outras formas de ser autónomo, daí que me assustava a simples ideia de ficar cego. Mas hoje, e graças à incrível capacidade de adaptação que nos distingue do resto dos animais, sou capaz de fazer tantas coisas, bastando-me para isso ter vontade e espírito de aventura.

Muito obrigado pelo artigo que me fez pensar o quanto são preciosos os sentidos que tenho e que posso com eles "enxergar" mais conscientemente o que me rodeia.

Cumprimentos cordiais.

Marco Branco