Talento às escuras

Odilio Bastos Filho, de 30 anos, perdeu a visão aos seis meses. Ao nascer prematuro, foi mantido na incubadora sem proteção e a luz do aparelho o cegou.

Os pais só descobriram o problema mais tarde, quando o menino não encontrava os brinquedos que deixavam à sua volta.

O garoto adaptou-se ao modo de vida e aprendeu a conviver com as dificuldades. Freqüentou a escola na cidade onde nasceu e vive até hoje, Rancho Queimado, a 70 quilômetros de Florianópolis. Cursou o ensino médio e sonha em cursar a faculdade de Computação. Chegou a prestar concurso público para auxiliar administrativo na prefeitura, mas não passou.

- Gosto desta área de informática, de mexer nos programas - afirma.

Além de informática, tem paixão pela música, o que, há dois anos, contribuiu para que conseguisse o primeiro emprego com carteira assinada. Bastos foi contratado para cantar no Hotel Fazenda Águas Claras depois que a professora de inglês, parente da proprietária, o viu cantarolar pelos corredores da escola onde ele se formou.

Nos finais de semana, os turistas que visitam a região e hospedam-se no hotel têm a oportunidade de apreciar as refeições e ouvi-lo cantar e tocar. A habilidade foi desenvolvida ainda na adolescência, quando aprendeu a manusear quatro tipos de instrumentos: teclado, acordeão, viola de 10 cordas e violão.

- Aprendi de ouvido, sem ter freqüentado nenhum tipo de aula - orgulha-se.

O pai, que era animador dos bailes do município, foi o principal incentivador. Em casa, Odilio costumava ouvi-lo tocar cavaquinho, durante os ensaios para as danças.

Para decorar as músicas que canta no trabalho, o cantor utiliza uma máquina de datilografar em braile. Ouve os CDs de seus cantores preferidos e, pacientemente, passa as letras para o equipamento. Lê, relê, até ter tudo na "ponta da língua". Procura ensaiar e fazer a escolha do repertório de segunda a quinta-feira.

Nas horas livres, gosta de estar com a família: mora com o pai, a irmã e os três sobrinhos.

Um desejo ainda não realizado é gravar um CD com músicas próprias. Bastos diz que até se arriscou e compôs algumas letras, mas ainda não se encorajou a levar o projeto adiante.

Por enquanto, interpreta músicas de artistas como Zezé di Camargo e Luciano, Daniel e outros cantores. Mas avisa: já criou um nome artístico pelo qual quer ser conhecido: "Zé da Roça", em homenagem ao povo simples do campo e pela preferência por canções sertanejas.

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http://www.clicrbs.com.br/jornais/dc/jsp/default2.jsp?

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