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Apesar das tecnologias cegos preferem ler em braille

por Lerparaver

As novas tecnologias facilitaram a vida dos deficientes visuais, já que através do sintetizador de voz estas pessoas podem ouvir os livros, e-mails e tudo o que procurarem na Internet. Todavia, o JM falou ontem com um casal de invisuais que acima de tudo prefere ler em braille. «Os cegos que não sabem braille são analfabetos. O nosso canal visual é o tacto, por isso não há nada que substitua o prazer de ter um livro na mão», disse ao nosso jornal Norberto Silva, numa conversa na Direcção Regional de Juventude.

Hoje assinala-se o Dia Mundial do Braille. Um alfabeto que passou a ser “uma luz” para os deficientes visuais que podem assim “ler” com a ponta dos dedos pequenos pontos em relevo num papel em branco. Mas, transcrever um livro para braille leva muito tempo, como também são necessários vários volumes. Por exemplo, um dicionário de bolso em braille necessita de 17 volumes. Por isso, as novas tecnologias foram uma mais-valia para os deficientes visuais que podem “ouvir” o texto através da sintetização de voz.

Todavia o casal Norberto Sousa e Sílvia Gomes prefere ler em papel. Norberto Sousa tem 27 anos e ainda consegue ver alguma coisa, o que já não acontece com a sua namorada que é invisual de nascença e como tal, dependente do braille. Ele é um madeirense que terminou o curso de Línguas e Literaturas Modernas em Lisboa, ela é de Braga e está a terminar o curso de Educação Social. Apesar de ter tirado um curso literário, Norberto Sousa quer ajudar os seus colegas na área das tecnologias para cegos. «Já há procura suficiente para apostar nessa área, principalmente para as pessoas que não têm apoio, como é o caso das que já não estão a estudar», disse o jovem ontem numa conversa na Direcção Regional de Juventude, que tem instalado um computador com braille e onde o casal foi consultar o mail. «É complicado pedir ajuda, porque nós não utilizamos o rato, usamos mais os atalhos, uns são iguais ao Windows, mas outros são específicos do nosso programa e é difícil pedir ajuda a quem não utiliza este programa». Daí que Norberto queira usar os seus conhecimentos a ajudar outros deficientes visuais.

Este madeirense ao longo do seu curso tirava os apontamentos e fazia os exames no computador com leitor de ecrã e sintetizador de voz e depois imprimia em braille. É porque «nada subsitui o prazer de ter uma folha na mão», explicou.

Norberto Silva teve contacto com o braille apenas aos 18 anos, porque até então ainda conseguia ler ampliado. A situação complicou-se e teve que aprender braille. Agora com 27 anos, diz que está sempre a aprender, porque é preciso praticar muito para conseguir ler depressa. «Cada vez que leio uma coisa em braille, descubro qualquer coisa diferente e a velocidade é difícil de adquirir», explicou o jovem.

Já a sua namorada, teve contacto com o alfabeto logo aos sete anos. «Sou dependente do braille mesmo. Acedo às novas tecnologias, mas quem já leu braille e lê agora através do sintetizador de ecrã não tem a mesma capacidade de compreensão e de assimilar, porque uma coisa é ver (sentir) outra coisa é ouvir».

Norberto Sousa considera que «os cegos que não sabem braille são analfabetos. O nosso canal visual é o tacto, por isso o prazer de ter um livro na mão, não há nada que substitua isso», referiu o jovem. Já Sílvia Gomes diz mesmo que o pior é a quantidade de papel que pesa um livro em braille. Mas, quando pode, imprime e lê com a ponta dos dedos.

Associam um cego a um pedinte

Norberto Silva, durante o seu curso, aderiu ao programa Erasmus e passou dois anos na Alemanha, onde a realidade é diferente. «Em Portugal recebia as obras em braille depois de já ter dado três ou quatro livros, lá era outra realidade», comentou. Nas cidades do Porto e Lisboa há outra aceitação, já na Madeira ainda se associa uma pessoa cega a um pedinte. «Durante anos o cego era aquele que estava à porta das igrejas a pedir esmolas e essa imagem ficou e é isso que tem de desaparecer», desejou Norberto Sousa.

Sistema braille foi instituído na Europa e América em 1852

O braille é um sistema de leitura com o tacto para pessoas invisuais inventado pelo francês Louis Braille, que perdeu a visão aos 3 anos. Aos sete entra no Instituto de Cegos de Paris e em 1827, então com dezoito anos, tornou-se professor desse instituto. Ao ouvir falar de um sistema de pontos e buracos inventado por um oficial para ler mensagens durante a noite em lugares onde seria perigoso acender a luz, Braille fez algumas adaptações no sistema de pontos em relevo. Em 1829, publicou o seu método. O sistema Braille é um alfabeto convencional cujos caracteres se indicam por pontos em relevo. Assim, o invisual distingue por meio do tato. A partir dos seis pontos salientes, é possível fazer 63 combinações que podem representar letras simples e acentuadas, pontuações, algarismos, sinais algébricos e notas musicais. Louis Braille acabou por morrer de tuberculose, em 1852, ano esse em que seu método foi oficialmente adoptado na Europa e América. Marília Dantas

Fonte: http://www.jornaldamadeira.pt/not2008.php?Seccao=14&id=86336&sdata=2008-...