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Transportes públicos: Bengala não vê

por Lerparaver

Por Rui Almeida

Longe vai o tempo em que a planta dos pés, os cascos dos cavalos e os ladrões eram as preocupações mais prementes de quem iniciava uma jornada. Os tempos, as necessidades e os modelos de sociedade são necessariamente diferentes, no entanto, continuam a existir teimosamente na sociedade portuguesa situações de discriminação social particularmente gravosas para os cidadãos com necessidades especiais.

A utilização do transporte público de passageiros é uma dessas situações, que diariamente afecta milhares de portugueses por todo o País, nomeadamente aqueles que são Cegos ou Amblíopes.

Naturalmente, os Cegos e Amblíopes não podem estar satisfeitos com as condições dadas pela rede de transportes pois, os esforços dos sucessivos Governos não se repercutiram (ainda) numa efectiva capacidade de resposta para superar os condicionalismos. Na verdade, tais iniciativas ficaram-se somente pelo plano teórico, continuando a persistir os problemas de orientação e mobilidade na rede dos transportes colectivos para estes mesmos cidadãos.

Para que se possa dar resposta cabal às dificuldades é necessário identificar os problemas com que esta comunidade se depara na rede de transportes.

Assim, e correndo o risco de ignorar alguns, os mais frequentes são:

- A impossibilidade dos Cegos e Amblíopes saberem qual o número e destino da carreira que se está a aproximar da paragem.

- Quando estes se encontram só na paragem, normalmente a carreira nunca pára devido ao desconhecimento da sua aproximação, por parte das pessoas em causa.

- Por vezes, assistimos à paragem das carreiras antes ou depois do lugar certo (paragem), o que dificulta de uma forma acrescida a situação destes Cidadãos.

- Andar perdido nos terminais, nas Estações do metropolitano e Comboio.

Como resolver estes problemas?

A sua resolução não é fácil, mas não é impossível. Ela cresce proporcionalmente à evolução das tecnologias de informação e telecomunicações.

Assim, os Cegos e Amblíopes poderão Ter um serviço de melhor qualidade na rede de transportes se for implementado um sistema que disponibilize informação como: o número e destino da carreira que se está a aproximar da paragem, identificar a gare (destino) do metro, o número da linha e destino do Comboio entre outras.

A tecnologia a utilizar pode ser ultra-sons, luz infravermelha ou radiofrequências e bluetooth.

Este sistema não impede a existência de uma sinalética táctil (trilha), colocada no pavimento, nomeadamente nas estações do metro e comboio.

Situação Actual

Nos finais da década de 90 assistiu-se ao aparecimento de algumas iniciativas no campo da orientação e mobilidade baseadas nas tecnologias da informação e telecomunicações, susceptíveis de serem aplicadas na rede de transportes colectivos. Mas, mais uma vez, a inexistência, em termos práticos, de um organismo que efectuasse o acompanhamento dos resultados propostos a atingir, contribuiu para a não operacionalização das mesmas, além de não se evitar, financiamentos públicos para objectivos semelhantes.

No entanto, algumas dessas iniciativas seguiram o seu trajecto normal, estando hoje na fase de anteprojecto. Trata-se do Net Mapa e do Projecto de Acessibilidade dos transportes para pessoas condicionadas da visão - PATPCV. O primeiro desenvolvido pela Universidade de Aveiro. O segundo definido pelo ex-Ministério do Equipamento Social com a colaboração de uma equipa técnica da Faculdade da Engenharia do Porto. Ambos os projectos têm um denominador comum: disponibilizar informação na rede de transportes Públicos no sentido de dar uma melhor percepção e orientação ao Cego ou Amblíope. É de realçar a ambição do PATPCV pois, para além da autonomia do utilizador, o Projecto contempla a acessibilidade em quatro situações distintas:

1- O acesso exterior ao transporte, ou seja, o acesso às estações, terminais, etc.;

2- A circulação dentro desses espaços;

3- O acesso ao meio de transporte;

4- O prosseguimento do trajecto após a chegada ao destino.

Assim. Informações como. O número e o destino da carreira que está a chegar à paragem, o número da linha do comboio desejado, a interacção com as máquinas/bilheteiras, chamar um táxi entre outras, irão estar disponíveis para estes Cidadãos se o sistema for implementado.

PATPCV assenta na utilização das tecnologias acima referidas.

Considerações finais

Uma estratégia clara e objectiva ancorada num organismo que configure mecanismos de actuação transversal nesta área, é necessária e urgente. Pede-se também às IPSS que pugnam pelos direitos e deveres destes Cidadãos que tenham um papel activo com propostas eficazes e consolidadas em termos técnicos pois, as atitudes passivas e comiserativas não levam a lado nenhum.

Aos operadores que estão ou virão a implementar os STI, tenham em consideração os problemas deste nicho de clientes, ou seja, não ignorem a possibilidade de disponibilizar - de forma sistemática -, um conjunto de informações de real apoio a clientes com dificuldades da visão. O mesmo pedido é extensível às empresas de telecomunicações e também às que disponibilizam aplicações de bilhética.

De facto, não se pode refutar a excelente oportunidade de negócio que este serviço pode representar para a/as empresas videntes, ou seja, aquela/as que tenham a imaginação e perspicácia para detectar as reais potencialidades deste negócio.

Apela-se assim, à capacidade, vontade, imaginação e empenho dos diferentes actores no intuito de dignificar o direito à informação e, evitar a marginalização ou discriminação dos Cegos e Amblíopes – Cidadãos.

Rui Almeida, Consultor

Publicado no nº 3 da revista “Transportes em Revista"

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