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Um caso real. "Sou dependente do computador. A primeira coisa que faço quando me levanto é ligar o computador, vejo o email e falo com os amigos."foto de Maria de Lurdes Fontes Oliveira, cega aos 23 anos devido a uma retinopatia diabética.

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Começa assim o dia para Maria de Lurdes, cega desde os 23 anos de idade, devido a uma retinopatia diabética. Mas nem sempre foi assim. Maria de Lurdes teve que percorrer um longo caminho até conseguir viver autonomamente.

Divorciada e com 35 anos, Maria de Lurdes nasceu em Moçambique e veio para Portugal com 7 anos de idade. Até aos 9 anos, viveu em Santa Maria da Feira, mudando-se depois para S. João da Madeira, onde reside actualmente.

Desde os 7 anos que Maria de Lurdes é diabética e, por isso, cedo começou a aprender a enfrentar as naturais complicações que a Diabetes traz. Decidida e lutadora, Maria de Lurdes tentou enfrentar sempre as contrariedades que da doença. Nesta altura, ela ainda via e a probabilidade de perder a visão era remota.

Depois de terminar os estudos, conseguiu emprego numa empresa em S. João da Madeira como operadora informática e foi a partir de então que surgiram as primeiras complicações com a visão. Aos 23 anos, Maria de Lurdes perde a visão, devido a uma retinopatia diabética.

“Aceitei muito bem a cegueira, logo de início, porque foi logo fazer a reabilitação, senti-me logo ocupada. Além do mais, era muito brincalhona e isso ajudou bastante.”, declara Maria de Lurdes.

Com a ajuda da família e dos amigos, Maria de Lurdes foi para o Centro de Reabilitação da Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa, onde esteve mais de um ano. Aí, aprendeu a viver com a deficiência visual, tornando-se uma cega autónoma e independente. Aprendeu a utilizar a bengala como factor de orientação, o Braille, a tratar de si e a fazer a lida doméstica.

Ainda em Lisboa, tirou um curso de informática na ACAPO, onde aprendeu a trabalhar com o computador e softwares específicos para cegos como o leitor de ecrã.

“Foi uma experiência muito boa para mim. Gostei muito de lá estar. Depois de tirar o curso, soube que havia uma vaga para telefonista no Inatel, em Lisboa. Concorri ao emprego, que não era só para cegos mas para qualquer pessoa, e consegui entrar.”, recorda Maria de Lurdes. Aos 26 anos, Maria de Lurdes consegue, assim, um emprego como telefonista no Inatel, em Lisboa. Uma conquista muito positiva, na medida em que “hoje em dia, é muito difícil um cego conseguir que o aceitem no exercício de qualquer função da vida activa.” .

Dois anos depois, é transferida para o Inatel do Porto, onde trabalha há seis anos e meio, e passa a residir em S. João da Madeira.

Através de um amigo, acede aos serviços do Centro de Apoio ao Deficiente Visual da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde recebe formação na área da informática. Apesar de Maria de Lurdes possuir já um curso de informática, ela sentiu a necessidade de actualizar os seus conhecimentos, sobretudo aprender a trabalhar com o novo sistema operativo, o Windows, pois, até então, Maria de Lurdes trabalhara sempre com o MS-DOS. Além disso, novas tecnologias dedicadas a cegos tinham surgido, como o Jaws ou o Openbook, com os quais era preciso saber trabalhar.

O apoio psicológico que recebeu no Hospital Santo António do Porto foi muito importante para Maria de Lurdes. Embora se considere uma pessoa extrovertida e determinada, “há momentos em que a depressão bate à porta e é preciso combatê-la”.

Durante o tempo em que esteve no apoio psicológico do Hospital Santo António, Maria de Lurdes travou uma forte amizade com a sua médica/psicóloga. “A minha médica era uma amiga para mim. Como andava muito desanimada, ela propôs-me um desafio: formar uma Associação de Diabéticos.” Este incentivo foi determinante e, hoje, Maria de Lurdes é Presidente da Associação de Diabéticos de S. João da Madeira.

Actualmente, vive sozinha em S. João da Madeira, num apartamento que adquiriu através da Caixa Geral de Depósitos. Em Portugal, os únicos bancos que concedem crédito a pessoas deficientes são a Caixa Geral de Depósitos e o Montepio Geral.

“Adaptei-me muito bem ao dia-a-dia. Em casa, faço de tudo. Sirvo-me do computador, do Jaws e do Openbook para fazer os meus trabalhos e raramente utilizo o Braille.”