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Amblíope e escritor

por Lerparaver

José Torres Gomes esteve 35 anos sem sequer poder ler. Hoje escreve e publica

O ‘prefácio’ da vida de um homem pode dizer muito pouco sobre a história das páginas seguintes. Como o de José Torres Gomes. Nasceu em Belinho, uma freguesia rural de Esposende, com a doença degenerativa de Stargardt, detectada na infância e que de ano para ano lhe foi retirando a capacidade de visão. Hoje, dizem os médicos, tem uma incapacidade de 90%. Desistiu desmotivado da escola no 6º ano de escolaridade para se dedicar à agricultura. "Não conseguia ler os livros" de que lhe falavam porque "mal via as letras" que preenchiam as páginas. Mas, aos 40 anos, está a dias de publicar o segundo livro da sua autoria (ed. Atelier das Letras).

‘Nunca Mais te Vi’ é o título da obra, passada no século passado, do homem que foi também em tempos servente na construção civil mas depressa constatou que "esse trabalho só agravava o problema degenerativo de visão" e depois se dedicou à criação de coelhos num anexo atrás da casa onde ainda vive com a mãe.

A REVIRAVOLTA

A cambalhota nas expectativas de José Gomes deu-se em 2006. Tinha 35 anos quando conheceu a ACAPO, a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal, e percebeu que o Mundo pode ser um lugar muito maior do que as limitações com que se nasce. Percebeu que as possibilidades são mais do que muitas quando se usa os meios certos – foi o que aconteceu com o leitor de tela, um software que, instalado no computador, permite escrever todas as letras que se queira e ouvir o que ficou para trás.

Na mesma altura inscreveu--se no programa Novas Oportunidades e concluiu o 12º ano. E foi aí que as histórias que ao longo dos anos encavalitara na memória nasceram finalmente no ecrã. "Antes de saber que havia essa possibilidade cheguei a comprar um gravador e ia para o campo debitar histórias para o aparelho. Lá escondido, no meio do nada, para ninguém me ouvir. Tinha a ânsia de escrever e sabia que ia escrever desse por onde desse". ‘Os Ossos’ foi o primeiro livro que assinou e que mesmo sem ver as letras lhe deu "a certeza de que a escrita era para continuar ". Isto ao mesmo tempo que descobria os audiolivros (que se ouvem em vez de se lerem) na biblioteca e os devorava em poucos dias.

"Li de seguida o ‘Dom Quixote’, ‘Manhã Submersa’ e ‘O Conde de Monte Cristo’". Tem mais de 12 mil clássicos da literatura guardados no computador e outros tantos no MP3. À medida que escreve vai ouvindo. Só uma pessoa se queixa: a mãe. "Diz que eu antes tinha mais tempo para jogar às cartas com ela. Mas está muito orgulhosa do que consegui". José, que quando entra num edifício pela primeira vez tem de ir "às apalpadelas" e que não reconhece feições a poucos metros de distância, inspira-se "em documentários, palestras e pessoas. Também nos vizinhos". E em sítios onde nunca foi ou lugares onde não viveu. Este último livro mereceu rasgados elogios num prefácio de Rui Cardoso Martins. No fundo, a moral desta história é só uma: não é preciso ver para escrever.

LEITOR DE TELA CONVERTE LETRAS EM SONS

Antes de conhecer o programa de computador que converte as letras em sons – em vez de ler, ouve o que escreve – José Torres Gomes testou vários métodos. "Falar para um gravador, usar um teclado com letras gigantes e escrever as histórias com um marcador muito grosso" foram as formas que arranjou de contornar o problema de visão e conseguir escrever as histórias que tinha imaginado. E eram muitas. Tanto que foi em 2006 que foi ‘apresentado’ ao software que lhe mudou as rotinas de escrita e desde então já vai no segundo livro.

‘Nunca Mais te Vi’ vai ser apresentado no dia 12 de Março e na gaveta tem outro "praticamente ultimado", várias poesias e contos infantis. "Demoro mais ou menos um ano a escrever cada um". E como vê os livros que escreve? "Na minha mente vejo tudo com clareza, aliás, é aí que eles começam por existir".
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Fonte: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/outros/domingo/ambliope-e-esc...

Comentários

os meus parabéns e desejo de muito êxito com a publicação do seu segundo livro.

Fico muito feliz por ter realizado o seu sonho de escritor e dele nunca ter desistido!

Eu também escrevo poemas e contos, alguns estão publicados no lerparaver, e outros em livros que gostaria de ver publicados um dia destes.

Continue, força!