Blog de Anacristina

O amor entre cegos é tabu ainda hoje?

Olá, desta vez decidi escrever um artigo sobre o amor, porque me parece outra coisa que entre nós deficientes visuais, ainda parece uma coisa impossível de acontecer. Isso deixa-nos, talvez um pouco marginalizados.
E porque comigo aconteceram coisas do género, é também a vossa oportunidade para contarem vossas experiências. Eu tive muitas e desagradáveis.
Cheguei à idade de sentir algo diferente por alguém e isso aconteceu com um rapaz de minha turma. Todos se riram de mim, porque eu não podia, porque eu não era para ele, porque eu... enfim, tantas e tantas barbaridades que nem vale a pena falar. Mas não desisti. Ainda estava a começar a conhecer o mundo, mas já tinha quase a certeza que as pessoas neste sentido eram muito más. Doía-me muito porque apesar de tudo ele fazia mesmo de propósito para se mostrar, para me deitar abaixo com uma que era mesmo a sua suposta namorada. Nunca me acreditei, mas pronto. Fazia essas cenas à minha frente, eu afastava-me, afinal que tinha eu com isso? ele fazia a vida dele, eu a minha. Não gostava, paciência, eu faria os possíveis para me afastar, faria os possíveis por me esquecer. Mas nunca o perdoarei por isto. Hoje é meu amigo, mas nunca mais o perdoarei por isso. Fez de mim uma pessoa diferente dele, uma pessoa que não tinha as capacidades dele. E porquê? porque sempre gostei de dizer a verdade. E não aguentei mais e um dia pedi-lhe para falarmos. E disse-lhe que sentia uma atracção. Ele na altura compreendeu, explicou que não dava, porque na verdade ele não gostava de mim dessa maneira, que eu tinha de o esquecer. E pronto, gostei da frontalidade. Mas ele dizia que estava sozinho mas não estava. Estava sempre com colegas que o mandavam fazer isto ou aquilo... e isso também não lhe perdoo numca mais. E começaram as brincadeiras. Uns dias falava, outros eu nem sequer existia para ele. Outros era tão exagerado com a tal rapariguinha... até que comecei a ter o meu orgulho e isso a pouco e pouco deixou de me afectar. Mas nunca mais o perdoarei por isso.
Outra vez uma rapariga que também era cega contou-me que o namorado gostava muito dela, mas quando chegou à hora da verdade decidiu deixá-la, dizendo que era melhor para os dois, que fazia isso por amá-la, pondo em causa a sua deficiência.
Assim é a nossa sociedade. Quemnão tem uma anormalidade que atire a primeira pedra!