Naquele dia, enquanto o mundo esmerava-se nas suas invenções tecnológicas, naquele dia, enquanto o jornalista de sucesso deletava as frases feitas de todos os dias e fazia uma manchete comum, naquele dia, enquanto o pedaço de cristal, num lugar esquecido, se deixava burilar pela sanha do vento de inverno, naquele dia eu e você nos atarefávamos em conhecer a arquitetura das nossas próprias mãos. E enquanto as bolsas do mundo enfrentavam a balbúrdia nervosa dos ganhos fáceis, nós experimentávamos a silenciosa e etéria carícia da minha pálpebra sobre a sua pele,e conhecíamos a lei do repouso enleado dos corpos, enquanto do fundo da terra, em algum lugar do mundo,um terremoto se preparava para ser notícia.
E como nos beijávamos, indiferentes ao bulício da rua, bem ali, debaixo da nossa persiana fechada!
E num dado momento você desviou os olhos, e focou o seu laptop, ali na mesinha da secretária.E fugiu de nós,como um peixe dourado a desviar-se da linha de pesca,
e num gesto brusco espalhou todas as folhas da minha carta.
Descabelada, abri a janela e veio o vento bisbilhotar a respeito dos atos de paixão,e tratou de desmantelar o alfabeto da nossa crônica de amor, atirando letras para todos os lados.
E naquele dia, por baixo do ruído do pregão das bolsas,indiferente ao zumbido frenético do mundo, o bem-te-vi debicava sílabas inconclusas da nossa crônica de amor, enquanto você conferia, no plantão de notícias, a manchete sem sal do jornalista de sucesso.



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