Da leitura de Barriga à Aeróbica Braçal
Por joana belarmino
Criado em 22/06/2007 - 12:36
Desde menina. Desde que apalpei aqueles seis pontinhos Braille e compreendi sua forma de associação, desde que aprendi a juntar palavras, vivo entre livros. Mas antes a minha leitura era de barriga.
Isso mesmo. Leitura de barriga. Eu pegava um livro na biblioteca da escola, deitava na minha cama e devorava as coisas do mundo da literatura, o livro grande em cima da minha barriga.
Foi assim com o mundo encantado de Monteiro Lobato, os clássicos da literatura brasileira, “A Cabana do Pai Tomás”.
Agora a leitura não pede barriga, mas um duro trabalho braçal. Eu digo que é como tecer e destecer o manto de Ariadne.
Explicando. Entro na livraria como todo mundo, compro o livro que quero e zás!
Volto para casa, abro meu scanner hp, e começa o trabalho de digitalização, para ter acesso ao impresso.
Coisa de louco, quando a gente sabe que todo livro, na atual conjuntura informática, antes de ser impresso, é digital! Então é como se eu voltasse no tempo, para desenredar o digital do impresso, sabendo que nos bancos de dados do mercado editorial, o digital ta prontinho, sem sujeira, sem problemas de formatação, prontinho para virar impresso de novo, prontinho para gerar cifras e mais cifras no grande sorvedouro mercadológico do balcão das livrarias.
Sou criminosa? Sou pirateadora de livros?
Sou uma espécie de “livreira de Cabul” paraibana a fazer cópias e mais cópias dos livros que quero ler?
Não para todas as perguntas. Não vendo o fruto do meu trabalho braçal. Apenas leio o que digitalizei, refém da voz sintética do meu computador.
Chegará o dia em que os editores de livros destravarão o selo da sua falta de vontade política e se sentarão à mesa das negociações, para tratar conosco, centenas de milhares de pessoas cegas, acerca da acessibilidade ao livro?
Chegará o dia em que vou à livraria, compro meu livro, no formato que desejar, para leitura de barriga ou áudio leitura?
Trinta e uma linhas escritas, já agora. Quantas blogadas mais serão necessárias para o destravamento do selo da falta de vontade política dos editores de livros?