Por Assis Milton
"Um homem entrou no seu carro, enfiou a chave na ignição, pronto para arrancar. Mas o carro recusa-se a pegar. Está avariado. Inspecciona tudo. Não, nada. Está avariado e não há nada, nada a fazer. Tem de ir para concerto. Tem o carro há pouco tempo e sempre andou bem. O homem sabe conduzir. Nunca teve nenhum acidente. Sabe conduzir mas não pode conduzir porque o carro está avariado. É tão somente isso.
João sabe escrever mas tem a mão direita engessada. Ficou ferida num acidente. Ele sabe escrever, precisa de usar a mão para muitas coisas, mas nesta altura não consegue. Está a espera que ela sare. Ele sabe escrever mas não pode. É só isso.
António sabe ver. Mas não consegue ver porque tem o seu aparelho visual avariado. Está a espera de um milagre da ciência. Ele de facto sabe ver, mas não consegue. Ele não é Cego. Ele está apenas incapacitado de ver por causa da avaria visual. É somente isso.
Algumas pessoas pensam que uma pessoa acaba quando morre. Para elas a pessoa é o corpo físico que se vê e perfeitamente observável. No entanto o que constatamos sem sombra de dúvidas é que, por exemplo, quando uma pessoa perde as pernas e elas ficam iguais ao cadáver, essa pessoa não fica, no entanto, reduzida, nem um pouco, no seu Eu. Continua a reter o seu nome, lembra-se de tudo, assina os seus cheques, responde pelos seus actos. Não perde direitos. Considera-se, ainda assim, um Eu completo.
Fernando sofreu um transplante de coração. O seu, com o qual tinha nascido, avariou-se e foi substituído pelo dum homem que tinha morrido de um acidente de viação. Chamava-se Alberto. O Fernando, apesar de andar com o coração de Alberto, não se considera 90 porcento Fernando e 10 porcento Alberto. Ele continua a sentir-se integralmente Fernando. Cem por cento Fernando. Tanto o seu coração original como o actual não passam de ferramentas que o Eu usou e usa.
O Eu com ou sem pernas, sem olhos ou dentes, sem braços ou um dos pulmões, desde que o que resta do corpo funcione, ele considera-se plenamente Eu. Um Eu irredutível. É o mesmo Eu, o que vê, o que ouve, o que sente, o que pensa, o que tem caprichos, etc. Ele sabe andar, mas não pode quando perde as pernas ou elas estão avariadas, estão a ver a questão? Afinal é muito fácil esta verdade, não é assim? Podemos reconhecer, então, que o Eu parece ser independente do corpo onde está preso. Utiliza-o, completo ou incompleto, desde que funcione. Quem, no seu bom senso, pode refutar esta simples realidade?
O que podemos concluir desta observação? É uma coisa muito simples e directa: Aquelas pessoas, a quem rotulamos de 'deficientes', são entidades integrais como Seres Humanos. Em nada diminuídos na essência. Devido à sua sabedoria na matéria, conseguiriam tudo o que é normal fazer-se, desde que os seus corpos funcionassem plenamente. Todos nós reconhecemos esta verdade aberta ou tacitamente. Se não fosse assim, não recorreríamos à medicina, curandeirismo, à religião, nem falaríamos na esperança que a ciência venha a descobrir a solução. Não é verdade?
Portanto, quando estiverem na presença de alguma pessoa portadora de alguma anomalia sensorial, motora ou orgânica, lembrem-se que estão diante dum Ente tão cem porcento Humano como qualquer outro da sua Espécie sem excepção. E, como somos animais por excelência gregários, temos de exercer a nossa acção de solidariedade duma forma mais nobre possível, nunca pensando que estamos a lidar com Eus inferiores ou incompletos.
Espero que tenham gostado desta pequena, mas muito útil reflexão."
Abril de 2002



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