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"A maior deficiência não está no corpo do deficiente físico, mas, na alma do preconceituoso." - blog de Céu

Será que a tecnologia está matando o Braille?

por Céu

Boa tarde a todos os amigos do lerparaver!

Sei que amanhã Luis Braille faz anos! Estive a pesquisar na Net mais sobre ele e encontrei este artigo interessante. O título chamou-me a atenção e achei interessante partilhá-lo convosco.

Será que a tecnologia está matando o Braille?

É possível que a tecnologia possa substituir o braille? E se isso se concretizar, o que faremos? Se pensarmos em todo avanço tecnológico que o homem já conquistou, nos daremos conta de que essas, são questões inerentes à nossa atual realidade. Por outro lado, que mal há em fazermos nossa própria interpretação dos textos que caem sob as pontas de nossos dedos?

Qual o caminho a seguir para o aprendizado da leitura e da escrita? A tecnologia assistiva deve substituir esse aprendizado?

Segundo milênio, nova era!...

Quem acreditaria que chegaríamos ao ponto em que estamos com tanto avanço tecnológico? Chegamos até mesmo a cogitar a substituição educador ser humano pela tecnologia computadorizada. Existem até aulas de formação universitária pela internet!... Será que isso é bom para nossos futuros profissionais?

Sem perceber, estamos voltando aos tempos das cavernas, só que com tecnologia. Estamos novamente nos encavernando, nos isolando da sociedade, evitando o contato direto com outras pessoas, nos reduzindo a um quarto com paredes e uma máquina, deixando de relacionarmo-nos com os outros de nossa espécie, o nosso semelhante, o ser humano.
Isso significa realmente avanço? É isso que chamamos de desenvolvimento ou evolução?

Voltando na máquina do tempo...

Nos idos do século XIX, um jovem chamado Louis, na França, ficou cego ainda menino, manuseando um objeto perfurante, quando brincava na oficina de seu pai. Alguns anos mais tarde, um objeto perfurante semelhante ao que lhe destinou a cegueira, veio abrir os olhos de vários outros cegos, pelo resto da humanidade.

Estou falando do senhor Louis Braille, que através de muitos ensaios e erros, acabou se baseando na taquigrafia, e utilizando a combinação de 6 pequeninos pontos, para formular o alfabeto Braille. Louis Braille, morreu na segunda metade do século XIX, sem saber o valor de seu invento, e, a luz que trouxe ao mundo para tantos deficientes visuais.

Desvendando um pouco esse método

O método Braille, permite ao deficiente visual aprender a escrever e ler toda e qualquer forma de escrita, seja na área ortográfica, bem como na área de exatas. Com ele, o deficiente visual pode ler através do tato da ponta dos dedos, desde uma redação, seja em seu próprio idioma ou em outro qualquer, até mesmo o japonês, incluindo estruturas matemáticas e partituras musicais.

Veja que maravilha, e olha que naquele tempo nem se cogitava a idéia da tecnologia que existe hoje. Dessa forma, hoje o cego pode aprender a ler e escrever, adquirir cultura e educação, aprimorar conhecimentos e desenvolver-se como qualquer outro mortal.

Assim, anos, décadas, séculos e até o milênio se passou e nada mais eficiente veio substituir o maravilhoso método Braille, que permite ao cego “ver” o que está escrito. Contudo, a humanidade evoluiu! descobriu meios científicos e tecnológicos que permitem inimagináveis possibilidades, como conversar via internet.

Desse modo, surgiu outro avanço para que a pessoa com deficiência visual conheça o mundo e os leitores de tela, vieram para que o deficiente visual utilize-se da informática e de todos os seus recursos, para conquistar todas as possibilidades que o universo da informática proporciona a todos.

Com isso, alguns deficientes visuais consideram que o Braille é obsoleto e um método em desuso. Será possível? Podemos trocar o mundo da leitura, onde nosso cérebro trabalha para decodificar e interpretar o que se lê, trabalhando assim nossos neurônios, para nos tornarmos realmente cegos e transformarmo-nos em orelhões, ou seja ouvintes esmerados?

Ouvir uma reportagem é a mesma coisa que lê-la? Ouvir um livro de Machado de Assis é o mesmo que ler e interpretar o conteúdo de sua obra? Será que uma pessoa que tenha a visão para ler uma revista ou um jornal, mesmo que via online, trocaria esta leitura pelo áudio do mesmo conteúdo?

Sei que o Braille ocupa muito espaço, pois seu formato é padrão e não há possibilidade de diminuir seu tamanho, como acontece com a escrita à tinta, pois essa redução inpossibilitaria sua compreensão legível. Com isso, um livro comum de 140 páginas, pode representar alguns volumes em Braille, e isso, demanda espaço físico para armazenamento, disposição para carregar algo volumoso e tempo de leitura.

A pessoa que não tem deficiência visual, quando lê, o faz utilizando os dois olhos, e quando não pode fazer uso de ambos os olhos para ler, tem uma leitura mais lenta e com um nível de compreensão um pouco mais lento também.

Entendo, que com o imediatismo dos dias de hoje, a digitalização e a gravação de textos, livros, apostilas de cursos, etc., facilitam muito a oportunidade e o desenvolvimento de nossos estudos. Contudo, se não soubermos ler e escrever o Braille correta e fluentemente, seremos como muitos de nossos avós, que não sabiam ler, e tinham o conhecimento empírico da vida.

Isso para os dias de hoje é inaceitável. Como pode haver um advogado que não lê leis, mas as decora porque as ouviu várias vezes pelo pen drive, por ser um profissional cego?
E como pode um administrador de empresas, que por ser cego, ao redigir seus textos, escreve a palavra anexo, com acento agudo no é, por nunca ter lido esta palavra, e assim, a escreve do mesmo modo que a ouve ser pronunciada?

Isso, para mim, pode se configurar como semi-analfabetismo.

Se a pessoa com deficiência visual reivindica mais acessibilidade, através de leis que impõem inscrições em Braille nas caixas de remédios, placas de logradouros públicos, cardápios e afins, se pedimos que nossos professores saibam o Braille para nos auxiliar nos estudos, essa reivindicação parece incoerente uma vez que o próprio deficiente visual está substituindo seu único método de leitura e escrita pelo áudio.

Sei que dentre aqueles que estão tendo acesso ao que estou escrevendo, muitos estão fazendo isso por meio do áudio, e assumo que a tecnologia assistiva de um leitor de tela também é muito útil em minha vida hoje, mas acredito que a tecnologia, deva ser um recurso, uma alternativa, mas não o único meio de comunicação entre os deficientes visuais.

Regina Célia, movimento livre

Comentários

Aqui na faculdade temos 13 universitários cegos. Nenhum usa o Braille. Os que usavam pararam de usar.
Em 2003 usávamos muito os textos em Braille, inclusive provas, monografias...
Temos uma parceria com o Instituto telefônica desde 2003, que imprime tudo que precisamos em Braille. Desde 2009 não temos demanda. Tudo é feito em computadores.
De tempo em vez, eu coloco este tema em pauta nas reuniões. Inclusive a questão da grafia. Dizem que os corretores de ortografia cumprem bem este papel.

O que a Regina coloca é fato.