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Um mundo para invisuais

por Gabriela Bonito
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Boa Tarde. Sou aluna de Design do Produto da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politecnico de Viana do Castelo (Portugal) e tenho em mãos um projecto interessantissimo que me está a dar algumas dores de cabeça...
O objectivo é desprender-me de tudo o que conheço e criar um mundo para invisuais, reflectindo nomeadamente sobre objectos, ambientes e comportamentos. Ou seja, como seriam os objectos ideais, como deveriam estar expostos, como seriam as casas e ruas, como se comportariam as pessoas... O meu docente abordou a questão do cumprimento, por exemplo. Referiu que as pessoas invisuais, num mundo concebido para elas, nao se cumprimentariam porque não teriam necessidade disso. Pois eu achei uma barbaridade. Gostaria de conceber um mundo humano, para humanos, sem tornar as pessoas em robots com tanta tecnologia e frieza. O facto de não verem não implica que tenham que viver de modo diferente. E se estou aqui para conceber um mundo ideal para invisuais, pretendo faze-lo com tudo aquilo a que todo o ser humano tem direito, independentemente dos graus de dificuldade que cada um possui a nivel fisico ou psicologico.

Preciso de um empurraozinho por favor... o que acham que seria necessario num mundo para os invisuais viverem sem "obstaculos"? Obrigada :)

Eu começaria por alterar o título para: “um mundo para todos”.

Na realidade, não pode haver um mundo só para cegos, porque os cegos são parte integrante da sociedade, onde há surdos, tetraplégicos, crianças, pessoas idosas, grávidas, altos, baixos, obesos, e até pessoas ditas normais!

Podia dizer por exemplo que num mundo para cegos, não havia carros em cima do passeio. Mas podia dizer o mesmo sobre um mundo para pessoas idosas, para crianças, onde existissem carrinhos de bebés, cadeiras de rodas, pessoas distraídas, etc.

Assim o mundo ideal para cegos é o mundo ideal para qualquer pessoa, é um mundo em que seja respeitado o conceito de desenho universal, em que tudo é feito para todos.

Aconselhava a investigar este conceito tão em voga, já que é a chave para o mundo perfeito que procura.

E quanto à expressão do seu professor, claro que as pessoas cegas também cumprimentam as outras pessoas com todo o gosto e naturalidade, o ser humano é um ser sociável.

Para que tenhamos o mundo perfeito, não basta respeitar o desenho universal, é também necessário uma mudança de mentalidades, em que todas as pessoas são respeitadas e vistas como pessoas, e este é o aspecto que estamos mais longe de atingir. O comentário do seu professor é um exemplo claro do que acabei de afirmar.

Com base no conceito de desenho universal, espero que o seu trabalho conduza a boas ideias para melhorar o mundo, dos cegos, e de todas as pessoas.

Penso que era importante começar por esclarecer estes pontos, para que o seu trabalho possa ir no bom caminho.

A questão é extremamente ampla, vou assim apenas referir alguns aspectos que possam ajudar.

Para que os cegos e todas as pessoas possam viver sem obstáculos, teriam de ter acesso com naturalidade a tudo o que necessitam, acesso ao meio fíciso, acesso à educação, ao emprego, acesso à informação, à cultura, ao desporto...

Nas ruas o importante é que não haja obstáculos, que haja sinais sonoros, indicações de onde são as passadeiras, etc...

Quanto a objectos, algo que seria importante, como produtos de mercearia, é que fossem facilmente identificados, podendo-se recorrer a etiquetas braille, ou soluções mais tecnológicas.

No ensino é importante que todos os materiais estejam acessíveis, em Braille, em áudio, etc, e que os professores tivessem formação e sensibilidade para ensinar a pessoas cegas.

No emprego é importante que hajam oportunidades de mostrar que se é capaz.

Num mundo ideal, os filmes eram audiodescritos, mas também legendados e com linguagem gestual.

A nível de acessibilidade electrónica, aconselho que leia a petição pela acessibilidade electrónica portuguesa.

Podia ficar aqui horas a escrever, mas acho que já é uma ajuda.

Boa tarde
somos alunas de design em coimbra e gostariamos que nos fosse dada alguma informação, visto que estamos a desenvolver um trabalho no âmbito das pessoas invisuais. Esta informação incidiria em ir ao encontro das necessidades das pessoas invisuais, com o objectivo de lhes proporcionar um dia-a-dia melhor e mais facilitado. Sendo assim, estamos também receptivas a propostas, e a uma eventual informação sobre a vida e o dia-a-dia de uma pessoa invisual.
Aguardamos resposta

obrigado
sandra almeida e sónia soares

Olá Gabriela

O seu trabalho é dedifícil elaboração pois requer alguma investigação sobre a condição humana e a condição da pessoa humana com necessidades especiais. Especificamente em relação ás pessoas com falta de visão, consegue alguma literatura sobre o assunto mas o melhor será colocar-se durante algum tempo no lugar de alguém que não pode usar o sentido da visão e assim tentar perceber as dificuldades que se lhe apresentam. O passo estará dado para pensar o que fazer visando colmatar essas dificuldades. Também será boa idéia introduzir-se num grupo de pessoas com dificuldades visuais que lhe possam transmitir algum saber.

Em relação ao tema do trabalho parece-me otópico.... Penso que esse mundo edial ás pessoas cegas será impossível pois o homem não é perfeito na sua essência pelo que nunca poderá construir uma sociedade perfeita.

A humanidade está demasiado preocupada com valores egocêntricos, as pessoas são incapazes de atitudes autruistas, em prol dos seus semelhantes. Cada indivíduo preocupa-se consigo mesmo, em resolver os seus próprios problemas, celebrar as suas próprias vitórias, lamentar-se dos seus próprios fracassos.

A sociedade actual deixou perder no tempo valores como a amizade, a solidariedade, a fraternidade, o respeito, a justiça e ignora o princípio da igualdade. O homem é um ser egoísta e materialista e as sociedades actuais são consumistas e preconceituosas.

Um mundo perfeito para uns seria sempre perfeito para outros pois, tal como diz Daniel Serra, os cegos são parte integrante de um todo. Se o respeito pelas diferenças estivesse em cada gesto, acção ou movimento, em cada pensamento, palavra ou promessa, em cada impulso, reacção ou projecto, enfim, em cada coração e em cada alma, o mundo seria facilmente perfeito pois tudo seria pensado, projectado e concretizado em função do equilíbrio entre as diferenças e as necessidades por elas implicadas. A inclusão seria naturalmente conseguida e todos seríamos "diferentes" mas com "igualdade de oportunidades" e plenos de "direitos" e claro "deveres".

Em relação ao exemplo do seu professor, considero-o demasiado infeliz para alguém que ocupa um cargo de responsabilidade social como o de docente. A esse senhor é-lhe exigido educar e não descriminar. Dizer que os cegos não têem necessidade de se cumprimentarem é o mesmo que considerá-los seres vivos mas seres sem vida....

Eu sou emotiva, afetuosa, emocional; sou cega total mas não sou insensível; gosto de "ver" o mundo que me rodeia ainda que seja através de outros sentidos que não o da visão; cumprimentar alguém tem a ver com emoções, sentimentos, estados de espírito e de alma, educação e integração social. Nada tem a ver com incapacidades físicas. Aos cegos falta-lhes um sentido, o da "visão", os outros podem substitui-lo. Os cegos têm a mesma necessidade física e emocional de entrarem em contacto com os seus semelhantes, cegos ou não, pois são seres humahnos como os outros.

Eu cumprimento as pessoas que não conheço por educação, respeito e etiqueta; cumprimento as pessoas que conheço por amizade, amor ou paixão; cumprimento por saudade, por instinto sexual ou por instinto maternal....

O exemplo do seu professor denota um profundo desconhecimento pela condição humana e pelas suas necessidades mais básicas, sem falar nas mais complexas. Como se propõe ele a um tema destes?

Eu proponho um exemplo:

Num escritório onde só trabalham pessoas cegas a côr das paredes poderá não as afectar. Ao remodelar o espaço, o director pede á empresa responsável pela pintura uma tinta de qualidade mas a custo económico. A tinta de côr é mais cara pelo que a empresa sugere tons de branco. Qual tinta escolher?
Se as pessoas são cegas não irão dar importância ao tom da parede, embora possam gostar mais de esta ou daquela côr. O sentido da visão de que não dispôem impede-os de apreciar os benefícios desta ou daquela sensação que a côr das paredes lhes proporcionaria. Assim, cabe decidir a testura, o efeito térmico e sensorial que a tinta irá ter no seu resultado final. Uma testura agradável ao toque, que não magoe, que seja termicamente agradável, lisa ou rugosa mas que seja agradável ao tacto pois no caso das pessoas cegas este é o sentido usado para afectar sensações físicas que , em situação de pessoas com visão, seriam despertadas por um simples olhar.

Boa sorte