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"A maior deficiência não está no corpo do deficiente físico, mas, na alma do preconceituoso." - blog de Céu

O limite como essência

por Céu

O limite como essência

Artigo de Fabiana Bonilha sobre deficiência visual
Fabiana Bonilha

Muitas pessoas sonham com a existência de um ser humano perfeito, sem falhas nem limitações. Tendo construído este ideal, , elas se põe a trabalhar por esta causa, criando ferramentas para erradicar toda espécie de deficiências, e para eliminar as doenças que possivelmente as originem. É um trabalho árduo e bem intencionado, mas inevitavelmente frustrante, já que este ser humano perfeito, sonhado e idealizado, de fato não existe. A condição humana, por si mesma, pressupõe a presença de limites, às vezes conceituados como imperfeições, como déficits ou como ausências. Não obstante os progressos científicos, todos nós, seres humanos, seremos sempre limitados em nossa condição.

Então, em face desta realidade, é necessário trilhar um outro caminho, que leve a uma verdadeira compreensão a respeito do que essencialmente nos constitui como pessoas.

De início, é importante considerar que nossas limitações dão origem à diversidade existente entre nós. Nossos limites individuais e a forma particular como lidamos com eles nos fazem seres únicos e nos diferem uns dos outros. Aquilo que uma pessoa tem como limite, a outra tem como habilidade, e esta distinção cria uma importante fronteira de contato entre elas, que se traduz em um vasto campo para trocas de experiências e de informações.

Além disso, por trás de todo limite se esconde um dom, um potencial a ser aflorado e desenvolvido. Se tomarmos a deficiência visual como um exemplo de limitação humana, veremos que a partir dela, foram criados recursos muito valiosos, que permitiram a melhoria da qualidade de vida para muitas pessoas. Se a deficiência visual não existisse, ninguém teria criado o código braile, e nós nunca teríamos conhecido este maravilhoso sistema de leitura tátil. Ninguém teria tido a oportunidade de ler um livro com as mãos, nem teria relatado o fascínio por esta experiência! Se a deficiência visual não existisse, nenhum cientista da computação teria se preocupado em criar leitores de tela eficientes, nem teria pensado em desenvolver modelos de sites plenamente acessíveis. Talvez o mundo da computação ficaria mais pobre, e seu universo seria restrito a poucas ferramentas e inovações.

Em síntese, se a deficiência visual não existisse, haveria um único modo de ver, uma única visão possível, um único órgão do sentido capaz de compreender as imagens e as cores. Talvez poucas pessoas se disporiam a pensar sobre o aspecto subjetivo da percepção, e sobre suas múltiplas dimensões.

Com base neste exemplo tão simples e concreto, pode-se notar que os limites são cruciais para que os seres humanos amadureçam e atinjam níveis cada vez mais altos de superação. Uma pessoa hipoteticamente sem limitações é uma pessoa que não enfrenta desafios, que não cria, que não busca, e, pior ainda, que não é capaz de refletir sobre si mesma.

A tentativa de se desenvolverem tecnologias que possam erradicar nossas imperfeições é então contraproducente e contrária à nossa própria natureza. Devemos, antes, desenvolver tecnologias que otimizem nossos recursos pessoais e que atendam aos propósitos para os quais fomos criados. Precisamos então agir com cuidado, sempre atentando para este curioso paradoxo: Se eliminarmostodas as limitações humanas correremos o risco de eliminarmos também o potencial que elas encerram, e, como popularmente se diz, estaremos desse modo trocando os pés pelas mãos.

Comentários

Olá, querida!

Adorei e concordo a cem por cento com o que a autora diz!

É verdade que ninguém é perfeito senão seríamos deuses. São as limitações que nos dão consciência das nossas capacidades, algumas delas escondidas dentro de nós e outras que antes considerávamos secundárias. Eu, por exemplo, desconhecia o meu talento para a escrita e foi graças ao Braille que aprimorei esse mesmo talento. Também passei a amar mais as minhas mãos, porque tenho muita sensibilidade nos dedos e posso fazer desenhos em relevo numa folha de papel cebola. E sei fazer a barba sozinho sem ajuda, cortar a casca dos alimentos, lavar a louça, etc, como as pessoas ditas normovisuais, a única diferença é que utilizo o tacto.

Confesso-te que nunca imaginei que era capaz de fazer essas coisas sem a visão, porque estava tão habituado e completamente dependente dela para tudo que ignorava que a vida podia continuar normal. No início, tinha vergonha das minhas limitações e fazia os possíveis por ser o mais "normal" que os outros, o que, muitas vezes, resultava frustrante pois tinha dupla limitação sensorial e poucas coisas estavam ao meu alcance...

No entanto, fiz por conseguir superar-me e hoje vejo como se não fossem as minhas limitações e a minha força de vontade eu não teria conquistado nem metade do que conquistei. Tudo o que aprendi - Braille, Orientação e Mobilidade, informática, habilitações académicas superiores - foi muito melhor do que ter ficado a lamentar-me num canto, porque não iria ganhar nada com isso. Eu o soube, porque entendi que, apesar de limitados, somos por natureza muito teimosos e acreditamos no que a maioria não acredita.

Foram as limitações que me fizeram pensar que elas não passavam de desafios à nossa inteligência, fazendo de nós pessoas mais corajosas e autênticas. Elas são um teste às nossas capacidades, obrigam-nos a usá-las e a desenvolvê-las. Só assim estaremos mais bem adaptados ao meio.

Resumindo, são as nossas limitações que nos fazem valorizar o nosso potencial único e a conhecer-nos ainda melhor. A diversidade humana é muito mais interessante do que se fôssemos todos iguais, não achas, amor?

Não serão as nossas limitações que nos vão impedir de sermos felizes, mas sim o nosso medo de pôrmos as nossas capacidades à prova.

Muitos beijinhos com todo o meu carinho,

Marco Branco

Olá Céu e Marco !

Não existe no mundo inteiro, pessoas perfeitas, perfeito só mesmo DEUS e mais ninguém !
Toda a gente é imperfeita ... uns mais e outros menos .... !

Não sei como existem pessoas q ainda procuram o homem ou a mulher perfeita, esqueçe não existe !
Não é por aí q devemos ir !

As nossas limitações, inicialmente custam-nos, ficamos revoltados ... !
Mas depois de as aceitarmos, tornamo-nos mais fortes !
Tornamo-nos em pessoas com objectivos / metas a atingir ... tiramos mais proveito de certas capacidades / dons q tavam esquecidos ou q nem davamos conta .... !

Porque é q acham q existe muita gente q se suicida ?
Porque t?m tudo, não têm objectivos na vida ... !

Os movimentos / associações / amigos, também têm aqui um papel mto importanmte !
No meu caso, a Fraternmidade ajudou-me a ser muito mais pessoa .... e evolui imenso enquanto pessoa e dou graças a ela pelo q eu sou actualmente ! loool

Abraços e beijinhos,
Filipe

Não existe no mundo inteiro, pessoas perfeitas, perfeito só mesmo DEUS e mais ninguém !
Enquanto pensarmos assim, continuaremos procurando a perfeição.
Eu só deixei de acreditar que poderia ser perfeito depois que desencanei da ideia de que existe um ser perfeito que segundo a bíblia, quer que eu busque imitá-lo.
Além disso, não seríamos humanos, não seríamos o que somos hoje se não tivéssemos sanado com o auxílio de instrumentos muitas de nossas limitações.
Concordo com a autora apenas em aspectos mais gerais. Quanto à aplicabilidade e aos exemplos dados por ela com relação à deficiência, creio que ela tenha sido infeliz.