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"Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre idéias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma." (Louis Braille) - blog de Céu

Os Direitos Lingüísticos São Humanos e Universais?

Submetido em Segunda, 05/12/2011 - 16:05 por Céu

Os Direitos Lingüísticos São Humanos e Universais?
Instituto Inclusão Brasil
Alex Garcia. Pessoa Surdocega. Presidente da Agapasm. Escritor. Especialista em Educação Especial.

Nosso objetivo torna-se claro quando, de nosso título supõem-se o contraditório e consequentemente a problematização. Problematizar a Carta dos Direitos Lingüísticos que se coloca na história da humanidade como Universal e assim Humana é objeto fático e assim sendo, a amostragem da diferença e consequentemente a negação da normalidade é necessário. Podemos observar que os Direitos Lingüísticos e a são consensualmente normalistas, pois, suas abordagens "sempre" se encerram na língua e no pleno desenvolvimento e aquisição da mesma. A normalidade da língua, à priori, supõe "normais" os sentidos superiores do ser humano, audição e visão, ou "normal" pelo menos um destes caminhos. Para fundamentar nossa reflexão temos como "agente-problematizador" a Pessoa Surdocega. Assim sendo questiona-se: Os Direitos Lingüísticos são universais e humanos? A lingüística é normalista? Ambas "necessitam" de bons olhos e ouvidos? A humanidade universal esqueceu dos surdocegos? Faces que se mostram na "obscura" tríade, linguagem-identidade-exclusão.

Especificamente neste contexto, vou reflexionar sobre os Surdocegos pré-simbólicos que apresentam deficiências áudio-visuais numa imensa gama de combinações, desde totalmente Surdocegos a parcialmente Surdocegos, além de ser comum as anormalidades físicas e variados níveis de desenvolvimento da Linguagem e inteligência. No entanto, fundamental no trabalho com Surdocegos é oportunizar uma educação adequada a eles. Os problemas de educação nestas pessoas severamente impedidas são extremamente graves. Com freqüência continuam funcionando estaticamente, devido ao déficit auditivo que impede o desenvolvimento da linguagem receptiva e expressiva. O visual limita sua exploração. Aspectos estes, normalistas de aquisição da linguagem. O cognitivo atrasa o pensamento representacional. O motor-oral repercute na inteligibilidade da fala. Destrezas motoras finas e grossas imaturas podem repercutir nos gestos naturais e o déficit no desenvolvimento sócio-emocional reduz ou elimina a linguagem pragmática. Dessa forma, a perda visual-auditiva não tem efeito adicional sobre o desenvolvimento e educação de Surdocegos, e sim multiplicador. A aquisição de um significado de comunicação é crucial para o desenvolvimento cognitivo dos Surdocegos. A linguagem é o significado simbólico pelo qual organizamos nossos pensamentos e compartimos com outros. A linguagem oferece o meio pelo qual a pessoa aprende acerca de seu meio e como atuar de maneira socialmente aceita. A fala é o código de linguagem verbal usada na linguagem expressiva. As pessoas severamente atrasadas na aquisição da linguagem carecem de significados para organizar e compartir seus pensamentos e necessidades básicas através da fala por conseqüência de uma língua. Usualmente, Surdocegos funcionam num nível de linguagem receptiva mais alto que a expressiva, dado que o entendimento precede a execução. Assim sendo questiona-se: Direitos Lingüísticos são universais e humanos? A lingüística é normalista? Ambas "necessitam" de bons olhos e ouvidos? A humanidade universal esqueceu dos surdocegos? Faces que se mostram na "obscura e gélida" tríade, linguagem - identidade - exclusão.

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Comentários

A sorte de não ter nascido surdocego

Submetido em Terça, 06/12/2011 - 12:42 por Marco Poeta

Olá querida Céu!

Realmente são poucas as pessoas que se interessam pela surdocegueira e que desejem partilhar informação sobre o tema... Apesar de o Lerparaver se dedicar à deficiência visual, a surdocegueira também deve ser tida em conta, porque pode acontecer que uma pessoa cega fique surda ou vice-versa. No meu caso, eu fiquei primeiro surdo e com a infecção que apanhei no hospital fiquei gradualmente cego...

Relativamente ao artigo... Ele faz-nos pensar e eu gosto muito de coisas que nos façam pensar, porque estamos constantemente a aprender com os outros e connosco mesmo!

A surdocegueira infelizmente existe e temos de aprender a viver com ela. É um processo de adaptação difícil (e doloroso para quem já viu e ouviu). Eu passei por muita coisa - rejeição da deficiência, revolta, ansiedade e períodos depressivos - até alcançar estabilidade emocional. Também tive sorte, porque já tinha adquirido a linguagem e podia comunicar com os outros através da escrita na palma da mão. Posteriormente, aprendi o Braille, o que foi um salto qualitativo na minha vida a todos os níveis.

Fui muito apoiado pela minha família e pela única instituição de Portugal de surdocegos. A todos estou profundamente grato.

Convivi com surdocegos pré-linguísticos, ou seja, que não tinham adquirido a língua. A sua mudez era consequência da sua surdez. Eram muitas as crianças surdocegas congénitas, mas temos de reconhecer que existe uma língua para os surdos e os surdocegos que é a língua gestual. Com uma intervenção precoce e adequada, essas mesmas crianças poder-se-iam desenvolver, nem que levasse mais tempo do que uma criança dita "normal".

Linguagem não é sinónimo de língua, pois a língua é constituída por sons humanos que se convencionaram e que se distinguem das outras línguas pela sua cultura, história e evolução. No entanto, todas têm em comum uma estrutura universal que é: morfologia, sintaxe e semântica. Por morfologia entendemos as características físicas, neste caso os sons vocais. Por sintaxe entendemos a ordem dons sons ou das palavras de modo a construírem uma mensagem. Sem a semântica não poderíamos dar significado às palavras. O léxico é o nosso vocabulário, ou seja, as palavras.

Agora falando da língua gestual. Ela é universal, sim senhor! Porque tem gestos que todos os povos utilizam naturalmente. Em vez de sons, são gestos que se fazem directamente na mão do surdocego. Quanto mais cedo toda a família, escola e comunidade em geral comunicar com a criança surdocega, mais ela terá a chance de se desenvolver, mesmo que ela tenha limitações cognitivas, é possível a aprendizagem graças à elasticidade cerebral.

Sou formado em Psicologia e estudei muito o desenvolvimento cognitivo e linguístico, e defendo que toda a criança deficiente tem um potencial que tem de ser desenvolvido por agentes competentes que acreditam nela e que puxam por ela. A piedade, o fatalismo, o conformismo, a resignação, a ideia descabida da normalidade, responsável pelos preconceitos, tudo isto dificulta o caminho para a felicidade do ser humano...

Veja-se que a normalidade se baseia em valores estatísticos, ou seja, o normal é o que a maioria faz. Ah! isto de ter de imitar a maioria já se tornou mania? Hoje vive-se no paradigma da globalização em que tudo deve ser homogéneo. Como dizia Paulo Freire, existe a cultura dominante e a cultura dominada. As crianças surdocegas não têm de ser "normais", mas sim elas próprias, com tudo o que têm de único e de bom. Se as escolas não se abrirem â diversidade humana, perderão a sua capacidade e a confiança dos pais...

Não posso ignorar que conheci crianças surdocegas de nascença e que tinham outras deficiências ou doenças associadas. Algumas tinham limitações cognitivas profundas... No entanto, tinham outras capacidades escondidas, capacidades essas que a sociedade ouvinte e normovisual não sabe valorizar...

Apesar de eu ser surdocego adquirido, foram muitas as pessoas que pensavam que eu era deficiente mental, mas a verdade era que a ausência da audição e da visão dificultava-me imenso o acesso à informação do meio. Muitas coisas me passavam despercebidas e não adquiria os mesmos conhecimentos que outros jovens da minha idade. E na escola muitos jovens não queriam relacionar-se com pessoas como eu e acabava sozinho nos intervalos. Muito não podia saber, e a maior parte do que sabia era pelos livros em braille. Talvez foi o devorar livro atrás de livro que me ajudou no meu desenvolvimento cognitivo. Sem ele talvez nunca teria estudado na faculdade.

Nunca gostei que me achassem "fantástico" ou com uma inteligência acima da média. É um exagero, porque eu sei que foi com muito esforço que consegui vencer na vida, apesar de muito faltar ainda...

Tive a sorte de não ter nascido surdocego ou de não ter limitações cognitivas graves, mas conheço surdocegos adquiridos que ainda precisam que escrevam uma carta por eles ou que não sabem trabalhar com um computador...

Se eu não tivesse tido condições e apoio e, sobretudo, muita força de vontade, seguramente não seria a pessoa felizarda que sou... Nem tu, Céu, olharias sequer para mim, porque seria um homem muito limitado e dependente dos outros... E sem o implante coclear talvez não estávamos juntos... ou tudo seria mais complicado para nós, numa sociedade altamente discriminatória...

Eu tive sorte, mas se não tivesse? Nem metade do que consegui seria possível... Porque nem toda a gente é sensível a comunicar através da língua gestual ou a escrever na palma da mão. Eu antes de ouvir com o implante sentia-me muito sozinho, porque eram poucas as pessoas que falavam comigo. Era quase sempre as minhas irmãs, os meus professores, as funcionárias e alguns colegas e amigos. Muitos faziam-no por caridade à frente dos outros, mas no momento em que eu precisava deles eles fugiam...

Então comecei a ser marrão, talvez as notas altas me trouxessem consolo ou valor. Não gozei a adolescência, não quis sair de casa, sempre a ler, a estudar e a pensar no passado... Cansava-me rapidamente quando ia sair à noite com as minhas irmãs, desejoso de ir para casa, para o meu cantinho. Não era leviano como muitos jovens noctívagos. Sempre intelectual, mas isso não era porque o era, a surdocegueira tinha feito de mim uma pessoa muito pensativa...

Respondendo às questões do artigo, como surdocego acho que podemos ser linguísticos se formos estimulados e tivermos oportunidade de aprender. A língua gestual é a língua materna de um surdocego. Todos temos uma língua que permite o desenvolvimento da nossa inteligência, mas temos de valorizar mais a língua gestual, encarando-a como o motor do nosso pensamento. Os gestos para a maioria dos surdocegos são concretos de modo a que eles tenham adquirdia a noção de permanência do objecto. A língua gestual como a língua materna dos ouvintes tem um valor pragmático, ou seja, permite a resolução de problemas quotidanos e práticos. O surdocego inicia com a aprendizagem da língua gestual e mais tarde com a da língua materna, ou seja, o português. Portanto, ele é bilingue.

Pessoalmente, considero que todos temos direito à educação da língua gestual, mas a sociedade está pouco aberta à diversidade, fruto da normalidade estúpida dos números. É mesmo triste tratar o ser humano como um número e rotulá-lo... O surdocego é uma pessoa e não um problema, e se nos preocupássemos mais com as suas capacidades e necessidades, ele seria uma pessoa tão boa como nós.

Acho que é tudo...

Muitos beijinhos!!!

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