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"Nenhum pessimista jamais descobriu os segredos das estrelas, nem velejou a uma terra inexplorada, nem abriu um novo céu para o espírito." (Helen Keller) - blog de Marco Poeta

Autobiografia de um jovem surdocego: Uma luz ao fundo do túnel

por Marco Poeta

Capítulo 5: Uma luz ao fundo do túnel

Não fui para o décimo ano como tinha pensado depois de ter feito o nono... Tanto esforço para quê?... A recompensa de tudo isso foi ter piorado da vista por não a ter descansado e ficado horas inteiras a esforçá-la sem dó nem piedade só para conseguir passar de ano... E por falar nisso, é verdade que passei, mas não como os outros, porque não fiz toda a matéria e algumas matérias de Matemática eram do sétimo. Em Física, não ia às aulas práticas, porque a minha pouca visão não dava para eu praticar desporto.

O Braille continuava na gaveta e teimava em usar a lupa e o grosso marcador preto, com os quais me entretinha a desenhar e a escrever nada relacionado com a escola. Contudo, para meu desespero ler as revistas aos quadradinhos do Super-Homem e da Disney tornou-se impossível... e foi como perder um antigo e doce prazer...

Na secundária e especialmente na profissional haviam cursos alternativos, mais profissionais, e como eu não ia ficar na primeira como os outros fui para um curso ligado a empresas que só durou um ano e de que não tive de reclamar. Porque, pela primeira vez, comecei a esforçar-me a sério e a sacar notas muito altas, tendo passado com vinte valores a Contabilidade.

Apesar de bom nas notas não me portava bem nas aulas, fazendo parvoíces nas aulas de Português, qual palhaço da turma. Também tagarelava muito com os colegas e os professores puseram-me sozinho numa mesa. Eu sentava-me ao fundo da sala, não escutando nada do que os stores diziam, porque a minha audição era quase nula.

Tinha novos colegas e dava-me com todos. Alguns eram bacanos e falavam comigo, escrevendo-me na mão. Eu falava bem, embora alto e esganiçado como num trombone.

Era verdade que tinha piorado da vista, e também era verdade que, de uma forma muito desagradável, ouvia muito menos de quando via o bastante para ser desenrascado. No entanto, tinha alturas em que enxergava melhor e era como que uma esperança de que, contra tudo, não piorasse mais e pudesse até mesmo melhorar um dia. A medicina que estava sempre a descobrir novas curas para velhos e novos males podia um dia brindar-me com um sorriso para o meu problema, mas era preciso ter fé e não perder a calma.

Mas enquanto isso não acontecia tinha de me contentar com a lupa e o marcador preto. Tinha na sala o meu computador ampliado, mas nem com a ampliação fazia algo de produtivo... Aliás, não conseguia ver as letras do teclado e a minha professora de apoio colou com fita-cola o teclado com Braille. Ajudou uma beca mas eu continuava a não sentir bem os pontinhos e a fazer batota com a lupa.

Continuava a ter aulas de Braille com a professora Ivone. Não era apenas Braille, também fazíamos jogos de texturas e aprendíamos a dupla guia-cego. Contudo, era sem entusiasmo que eu aderia às actividades, algumas vezes estive à beira das lágrimas e de uma depressão. Se eu tinha de aprender tudo aquilo era porque não ia ver mais a luz apenas a escuridão... Era um pavor medonho e o instinto de defesa fazia-me entrar num stress ansioso.

O curso era apenas um ano e quando ia a meio li pela primeira vez um livro em Braille da Sophia de Mello Breyner Andersen que tornou-se a minha escritora preferida. O facto de poder ler um livro emocionou-me e passei a achar o Braille uma coisa boa para mim, uma janela para o mundo, uma visão e audição interiores e sensitivas da vida, uma luz amiga ao fundo do túnel.

À medida que chegava ao fim do curso e tinha testes a minha vista desceu mais uns degraus deixando-me nervosíssimo e desesperado com o seu ritmo galopante. Enchi-me de neura e impotência; só pensava como o pessimista para quem a vida já não era possível com as suas limitações, que os seus sonhos se esfumavam um a um, que a felicidade não era para todos...

Entretanto, não era o único que desesperava e chorava desamparado. Era a minha família que sentia um pouco do que eu sentia, que o seu amor imenso nunca me abandonava em circunstância nenhuma. Mas de todos era a minha mãe que sofria pelo seu menino. Eu era o menino da mamã e era mais parecido com ela do que com o meu pai, que esteve pouco presente na minha vida e que muita falta me fazia.

O desespero da minha mãe levou-a a acreditar em tudo até mesmo na vigarice dos padres e pastores das seitas que andavam por aí a usar as mesmas palavras de Jesus. Um dia, a minha mãe apareceu em casa com um papel que esses tipos andavam a distribuir na rua. O papel tinha uma estampa com o desenho de um homem divino e em baixo estava escrito O Santíssimo Nome de Jesus. Quando voltei o papel li o seguinte: Se sofre de mau-olhado, bruxedo, doenças, de maus espíritos venha ter connosco e viverá uma nova vida em Jesus Cristo.

Fui a essa tal seita com a minha mãe. Entrámos no que me pareceu um escritório alugado e não uma igreja normal. Os bancos eram individuais e de plástico; na parede da frente uma grande cruz de madeira era tudo que indicava que se tratava de uma reunião religiosa. Vi uma porta que estava fechada e uma mesa de escritório com uma guitarra em cima.

Antes de começar o que não fazia ideia do que era, um homenzinho trotava entre os presentes a fim de recolher dinheiro que punha num saco. Quando o menzinho chegou perto de mim, estava impaciente pelo dinheiro e não reparou que eu era surdo.

Quando todos já tinham aberto a carteira, apareceu um homem alto, magro, de barba fendida e sotaina de padre. Olhava muito para ele, para o seu rosto sereno e olhos límpidos, e de repente pensei que aquele homem era positivamente Jesus Cristo. Jesus estava naquele corpo e as suas orações com os crentes eram acompanhadas ao som da guitarra que tocava com os seus dedos longos e finos.

Eu só tinha olhos para aquele homem que positivamente me ia trazer paz. Ele consolava as pessoas com um discurso decorado, em tudo igual ao discurso dos padres, mas as suas mãos eram quentes e transmitiam paz. Acreditei que estava a ser ajudado por Deus se Ele já antes me tinha ajudado.

Ainda fui com a minha mãe a outra seita de vigaristas que se faziam passar por santos. O sítio não era muito diferente do anterior, embora tivesse um púlpito e para além de uma grande cruz de madeira umas palavras perto do tecto que diziam: Jesus é o Senhor. Ao invés de vestir uma sotaina, era um pastor vestido de homem de negócios. Quando a minha mãe me levou até ele, ele pôs-me as mãos na cabeça e disse aquilo que Jesus dizia na Bíblia quando curava alguém. Ele pediu à minha mãe que me levasse lá mais vezes, que eu tinha de ir lá sempre.

Era a Igreja Universal, mas eu era católico e acreditava na Virgem. O pastor dizia que Deus o tinha curado da asma e feito outros milagres. Eu tinha de rezar muito pedindo a Deus saúde para a minha vista. Aquele pastor tinha uma mentalidade medieval, porque tudo o que era mau era coisa do Diabo e dos maus espíritos. Mas ele era um lobo na pele de uma ovelha, espiando as pessoas fáceis e roubando-as. Porque se a minha mãe queria que ele me ajudasse, ela tinha de lhe pagar todos os meses metade do seu ordenado. E o que é que ele fazia por mim? Rezava por mim pedindo a Deus que lhe desse poderes mágicos para me curar...

Eu e a minha mãe não voltámos a procurar aqueles homens astutos e de um trabalho desonesto. Eu rezava como nunca fizera, todas as noites ajoelhava ou rezava o terço. Pensei inclusive em tornar-me padre, mas isso não passava de mais um meio de fugir aos problemas e fechar-me num mundo de aparente tranquilidade espiritual.

O Verão avizinhava-se e o meu curso incluía um estágio de um mês. Fiz os testes com grande esforço e quando o cansaço já não me permitia enxergar nada entrava em pânico e agarrava-me ao Braille como tábua de salvação. Transcrevia os apontamentos para a máquina Perkins e sentia um alívio ao constatar que não ia acabar num beco sem saída e com lágrimas de derrotado. Mas não foi a tempo porque já quase não tinha testes e escrever resmas em Braille já não seriam necessárias...

A minha vista embaciava-se e o meu coração alvoraçava-se de medo de eu cair ou bater com a cabeça nos objectos que nem com um please se desviavam para o lado. E um dia quando ia a sair para ir à casa de banho verter água puxei a porta e os meus colegas ouviram um estrondo. Quando olharam eu fechava a porta atrás de mim a toda a pressa. No corredor levei a mão à testa a fim de me certificar de que ainda tinha a cabeça. Quando voltei para a aula, os meus colegas continuavam numa risota e a Mónica, corada de tanto rir, perguntou-me se eu não tinha escutado o estrondo. Fiquei perplexo como se nada se tivesse passado e respondi-lhe que não, que não senti nada, que se calhar foi a porta que se queixou.

Enquanto os meus colegas estagiavam a sério, fiquei na antiga escola básica a dar continuidade às aulas de Braille. Agora sim podia dizer a toda a gente que sabia ler e escrever Braille. Era como se, enfim, tivesse ganho um amigo fiel e que tornava os meus dias mais leves de passar, mostrando-me que o caminho da vida estava em ser capaz de trespassar no papel o que eu pensava para mais tarde retirar alguma aprendizagem e também estava em agarrar num livro e devorá-lo como o papão sedento de conhecimento.

Que destino iria ser o meu mal terminasse o curso? Um trabalho sem mais nem menos. Mas onde? Sendo eu surdocego estava em grandes dificuldades... O Centro Nossa Senhora dos Anjos não lidava com a pessoa com surdocegueira, bem como a APEDV, a ACAPO e a Fundação Raquel e Martin Saine... Nem o Centro Helen Keller era para jovens surdocegos. Só me restava o Colégio António Aurélio da Costa Ferreira, uma instituição para surdocegos. Mas aquilo era um lar-escola e não um centro de emprego. Eu tinha saído de lá por iniciativa própria e quando o director disse que eu não tinha como lá ficar era a pessoa mais feliz do mundo! Mas a minha família e a professora de apoio não partilharam do meu júbilo...

Diziam-me que o ensino secundário era difícil, que os professores não sabiam Braille nem tinham tempo para estar comigo, que eu não tinha equipamentos informáticos com Braille, que eu não podia estudar lá... O meu sentimento era de revolta e profunda infelicidade, porque punham-me limitações às que eu já tinha e barreiras que tornavam qualquer sonho meu remoto... Por que tinha de sofrer mais do que os outros? Por que tinha de fazer o dobro ou o triplo de esforço em relação aos outros? Por que não me deixavam ter as mesmas coisas que os outros?

Na entrega do meu diploma do curso, a minha professora de Contabilidade estava bem impressionada e emocionada comigo. Era o seu aluno favorito, que sacava altas notas nos trabalhos e testes. Passei com a melhor nota a Contabilidade, e recebi o meu diploma da sua mão com um sorriso tímido. Alguns colegas vieram despedir-se de mim depois do jantar de final de curso. Todos queriam trabalhar, porque os estudos não lhes diziam nada. Quando saí para a rua com a minha irmã, estava uma noite de breu. Nunca a noite me pareceu tão escura e num silêncio total. Nunca o caminho que pisara antes me pareceu cheio de obstáculos. Nunca na vida pensei viver um pesadelo como aquele, bem real e angustiante.

E muitas coisas me estavam ainda reservadas, era apenas uma questão de tempo...