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Artigo: A sensibilidade

por Ana Paula Dini

* por Carlos Ferrari

A palestra já passava de duas horas e por conta do grande número de perguntas e reflexões já havia se transformado em um maravilhoso bate-papo. Falar de acessibilidade sempre foi extremamente gratificante para mim, pois a partir desse assunto podemos entender toda a questão da deficiência sob um olhar moderno e esclarecedor. O que era até a alguns anos encarado como uma patologia, praticamente institucionalizada como doença, atualmente toma outra dimensão, a de uma limitação que pode ser maior ou menor de acordo com as barreiras de caráter social e ambiental.

"Então, em muitos momentos a sociedade também se mostra deficiente?” Essa pergunta veio como um presente, porque me permitia dar uma série de exemplos da inadequação de nossa sociedade para os indivíduos que fazem parte dela. Pensei alguns segundos e devolvi a pergunta para o grupo. O resultado não poderia ter sido melhor. Em poucos minutos foram dados exemplos de barreiras impeditivas não só a deficientes físicos, sensoriais, e ou intelectual, como também a obesos, idosos, gestantes, anões enfim, a constatação de que o desenho social a cada dia exclui mais.

Desta forma ficou fácil mostrar o grande paradoxo em que vivemos. Estamos na era da segmentação, produtos dirigidos para mercados específicos. As ferramentas de marketing a cada dia nos oferecem maiores subsídios para conhecer o segmento adequado para um produto específico e vice-versa. No entanto, ainda nos deparamos com uma pessoa com deficiência com dificuldades na hora de definir um pacote turístico, ir ao shopping, ou mesmo fazer compras pela internet. Neste caso quem é deficiente, o consumidor ou o mercado?

Felizmente, a luta de movimentos sociais organizados, somada a uma sofisticação na legislação e ao esforço de algumas iniciativas no setor privado têm mudado rapidamente este cenário. A desmistificação da acessibilidade como um problema de caráter exclusivamente arquitetônico, fez com que, a preocupação com a informação e a ambientação entrasse para esse debate.

Nas palavras de Barton, o isolamento das instituições constitui a mais mortal de todas as deformidades (Barton, 1996). Um cadeirante impedido de acompanhar um espetáculo teatral, um cego sem alternativas para operar um terminal bancário, um surdo sem possibilidades para acompanhar um filme, são exemplos claros dessa violência institucional.

Por fim, a pergunta que deu origem a esse artigo, uma senhora responsável por um museu me questionou, "além de todos os aspectos técnicos e das leis relacionadas a acessibilidade o que mais você destacaria como importante para inclusão de pessoas com deficiência?” Nesse momento creio que falou mais alto toda a minha história e as pessoas que fizeram parte dela, sem dúvida a resposta era simples, a sensibilidade. A expressão que soa muito parecido com acessibilidade, com certeza, foi alicerce de muitas de nossas conquistas.

A sensibilidade do médico que contou aos pais sobre a deficiência do filho, mais soube também dizer “vá em frente”, ele pode e o senhor e a senhora podem; a sensibilidade de tantos que contrataram não pela lei, mas pela certeza do talento e pela responsabilidade enquanto empregador; a sensibilidade de amigos, maridos e esposas que amaram incondicionalmente, além das limitações, as potencialidades.

A sensibilidade abre caminhos e faz com que toda a beleza de Monet possa ser admirada por cegos. Faz com que surdos dancem com toda a leveza da primavera de Vivaldi, e que cadeirantes emocionem o mundo com seu basquete mágico.

Então fica aqui a minha proposta. Transformemos a sensibilidade em lei! Não temos a necessidade de ir ao congresso, fazer plebiscito, ou pedir ao Presidente que edite uma medida provisória. Para que ela entre em vigor faz-se necessário muito exercício. Podemos começar olhando para nós mesmos e percebendo o quanto somos e podemos ser diferentes. Quantas limitações colecionadas e não percebidas ao longo dos anos! O próximo passo é olhar para o outro, entendo o quando podemos nos completar superando limites e identificando potencialidades. O exercício pode ser repetido freqüentemente e, em questão de dias, a lei passa a vigorar em caráter irrevogável.

* Carlos Ferrari é administrador de empresas, mestre em Administração de Empresas pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e pós-graduado em Marketing pela Fundação Cásper Líbero. O vice-presidente da Instituição é deficiente visual de nascença e ficou totalmente cego aos sete anos de idade. Atualmente é professor universitário nos institutos Ítalo-Brasileiro e Faculdade Interação Americana. Vice-presidente da AVAPE, instituição focada na inclusão de pessoas com deficiência. Ele é, ainda, Membro Titular do Conselho Nacional de Assistência Social - CNAS, presidente da Federação Paulista de Desportos para Cegos (FPDC), sócio-proprietário da Supera Treinamento e Gestão Sócio-Ambiental. Idealizador do treinamento Superação de Limites e Identificação de Potencialidades.
Entre em contato pelo e-mail: carlos.ferrari@avape.org.br

Sobre a AVAPE
Com 26 anos de atuação, a AVAPE (Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais) é uma instituição filantrópica beneficente de assistência social, que tem como missão promover as competências de pessoas com deficiência. Fundada em 1982, a entidade é considerada modelo de gestão e foi a primeira em sua área a receber a certificação ISO 9001. A AVAPE é reconhecida pelo trabalho de prevenção, diagnóstico, reabilitação clínica e profissional, qualificação e colocação profissional, programas comunitários e capacitação em gestão para organizações sociais. Oferece atendimento a pessoas com todos os tipos de deficiência, do recém nascido ao idoso. Desde o seu início, já realizou mais de 18 milhões de atendimentos gratuitos e inseriu 10 mil pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Na busca de parâmetros internacionais, mantém parcerias e termos de cooperação técnica com diversas organizações do mundo.

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Comentários

Olá Ana, parabéns pela postagem, você é brasileira? Gostaria de ler mais sobre este Universo.
Tenha um bom dia.

Abraços.

óla ana , ótimo o que você escreveu sobre legal que o mesmo partiu de alguem de dentro do país.
isso que muitos brasileiros precisam de ler, mas a educação concerteza um foco principal.

tenha uma ótima semana e um bom final de domingo.