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"Nenhum pessimista jamais descobriu os segredos das estrelas, nem velejou a uma terra inexplorada, nem abriu um novo céu para o espírito." (Helen Keller) - blog de Marco Poeta

O Apolo dos Cegos

por Marco Poeta

Antes de a escuridão de tantos séculos se romper
E triunfar uma nova luz jamais apagável,
A vida dos cegos era tão miserável
E condenável à mais pobre das existências
E à mais indesejável das dependências.

Cegos eram grupos que incluíam loucos e doentes;
Cegos eram grupos escuros de mendigos plangentes;
Cegos eram grupos de criaturas de um fado infeliz;
Cegos eram grupos marginais na rica Paris
Ou Holanda, não importa onde, sempre foram pobres
E sem a educação da sua pátria e dos nomes nobres…

Ser ou ficar cego era pior que estar nu,
Nu aos olhos da vergonha e do tabu.
A sociedade fechando os olhos àquela nudez
Impossível de cobrir, indefesa na sua mudez.
Muita resignação e caridade à porta das igrejas,
Vida de cadáver santo coberto de varejas…

Foi então que uma alma nasceu entre a gente
E como um homem morreu humildemente.
De repente, aos três anos deixou de ver
E na escuridão teve de sobreviver.
Que futuro espectacular o esperava!
Tornar-se-ia uma criatura inútil que pauperava…

Mas jamais permitiria ser inútil e inválido,
Jamais permitiria ser isolado e coitadinho,
Jamais como um ser humano deixaria de ser igual,
Jamais um ser humano seria tratado de um modo trivial!
Jamais! Tudo fez sem que nada o detivesse no caminho
E fê-lo numa época que deixava um cego sozinho…

Sozinho criou um alfabeto para cegos,
Longe de ser um alfabeto complicadíssimo como os pregos,
Alfabetos sem a animação e a simpatia
De uma suavidade e perfeita simetria
Com o tacto; um alfabeto tal e qual
Como um alfabeto criado por um normovisual!

Depois de imensos séculos sem esperança,
Hoje e para sempre e com mais confiança
Participamos no crescimento da humanidade;
Com um vasto saber somos de uma grande utilidade.
Ainda hoje muitos cegos não sabem que o Braille existe
E que os pode salvar da escuridão que persiste!

Comentários

Achei importante dizer aqui algumas palavras...
Eu acredito vivamente que os sonhos escondem sempre uma mensagem reveladora que devemos desvendar.
Esta semana tive um sonho como se alguém me estivesse a avisar do que iria acontecer... O sonho dizia: "Cuidado porque vão ficar com os teus poemas e não serás tu o poeta que os escreveu!".
Acordei a pensar nessas palavras e levei um susto ao me aperceber que estava a acontecer mesmo algo que não esperava...
Que iria ser feito dos meus versos que publicava neste site com o anonimato de Marco Poeta? De certeza que no mundo existiam centenares de Marcos e poetas e que qualquer pessoa podia dizer que tinha sido ela que escreveu os meus poemas ou o inverso: me apontassem o dedo como falso poeta. Sofri bastante com estes fantasmas a sussurrarem-me ao ouvido o preço da imprudência.
Há pessoas invejosas que não estão bem com elas próprias quando a cobiça do alheio as transforma em monstros. Conhecem o ditado que diz "A galinha da minha vizinha é melhor do que a minha"? É isso mesmo que as pessoas são. E quando as pessoas não acreditam é porque são invejosas e querem ser elas a ter tudo e os outros nada.
Por isso, decidi que os meus futuros versos seriam assinados com o meu nome verdadeiro, Marco Branco, e datados. Sempre que for de outro autor, eu cito logo o seu nome como tenho feito.
Tenho orgulho de ser poeta e os meus versos são mais do que meras palavras: são tudo o que sou, o que sinto, penso, e o meu maior temor é que eles sejam trocados por dinheiro e mentira...
O poema "O Apolo dos Cegos" é o poema mais emocionante que tenho, porque sou um admirador fervoroso de Louis Braille e um utilizador incansável do seu magnífico sistema, a melhor prenda que os cegos alguma vez tiveram! Mas estou triste, muito triste mesmo, porque ninguém teve ainda coragem de expressar os seus sentimentos a este homem de uma infinita generosidade sem preço...
Muitos pensam que o Braille é apenas um alfabeto, uma comunicação funcional... mas o Braille é muito mais do que isso! Sem ele continuaríamos a ser como "grupos escuros e plangentes" e sem a "educação da sua pátria e dos nomes nobres" com "muita resignação e caridade à porta das igrejas"...
Estou triste por este poema não ter recebido tanto interesse como os outros e estou a chorar mesmo enquanto termino...
Saudações

Louis Braille
Tu és o meu melhor amigo que me guias para fora da escuridão da caverna tenebrosa e dos pavores ancestrais.
Fora da caverna é a Beleza e a Luz que sinto na ponta dos meus dedos... Oh Louis!
Sou feliz e forte perante os gigantes de olhos que me tratam como um pigmeu, um Zé-ninguém.
Tu dizes para os gigantes: "Gigantes, que sabem vocês da vida se só olham por cima delas?". Os gigantes zangam-se e respondem: "Cala-te, pigmeu! não sabes nada do que estás praí a dizer!". Mas o meu amigo, sorrindo-lhes benévolo, responde-lhes: "Vocês só vêem aí de cima, mas cá em baixo é que está o conhecimento, nas coisas simples, na terra pulsante de vida e de sons, perfumes, danças... que vocês, de muito orgulhosos em só terem olhos, nem se dão conta."
Eu sorri de prazer com as tuas palavras e tu ofereceste-me sem hesitar o melhor de ti e do teu alfabeto com o qual construi a minha vida e felicidade.

Estás no meu coração que bate de alegria por todo o tesouro que legaste aos cegos, dando-nos uma nova vida e um impulso para subirmos muitos degraus com afinco!
Sem ti a minha vida seria horrívelm punham-me numa CERCI e nunca poderia ir à escola como as outras crianças, nunca poderia ler livros como os outros, nunca poderia escrever os meus próprios pensamentos, nunca poderia ter uma profissão como qualquer pessoa.
É por estas e outras razões que prezo imensamente o Braille, que se ele de repente desaparecesse ficaria super desorientado e a sentir um grande vazio dentro de mim. E a escuridão cairia como um pesado manto de trevas absolutas.
O meu "origado" é insuficiente. A ti Louis Braille, dedico-te este poema "O Apolo dos Cegos", porque és de facto o meu Apolo, que me trouxeste a Luz, o Conhecimento e a Esperança.
Deleito-me sempre quando passo suavemente os dedos pelos pontinhos e o meu espírito enche-se de uma energia revigorante e tudo parece percorrer o meu corpo com espasmos de emoção.

Olá!
Obrigado, sim, vou continuar mas agora estou muito ocupado com os estudos e com uma vida social muito activa.
Assim que tiver tempo para mim escrevo alguma coisa 8se estiver inspirado) e posto aqui.
Abraços

Oi, que bom que resolveu colocar sua verdadeira identidade Marco, e sinto muito por voce estar triste, a sua poesia é linda! todas são, quero pedir desculpas pois eu fiz uma interferencia, eu citei seus versos em minhas paginas pessoais, colocando o seu nome como "Marco Poeta", era como eu o conhecia certo? fiz isso porque o admiro, faço isso com todos meus autores favoritos. Pensei que voce tinha vontade de publicar seus livros por isso, eu enviei e-mail para algumas grandes editoras falando sobre o teu talento. Pedi para que eles visitassem seu blog, e lessem suas poesias. Estou me sentindo mau com isso! agora vejo que fiz algo que o chateia, me perdoe por favor! Não tenho nenhum interesse em prejudicá-lo. Desculpe

Raquel,
Não pode estar a culpar-se se as suas intenções eram boas, eu compreendo-a e estou muito contente por você ter querido ajudar-me. Isso é prova de que tem um grande coração onde todos cabem nele!
Eu a princípio identifiquei-me como "Marco Poeta" porque sou um jovem que escreve muito em verso. Já antes me tinha identificado aqui com o meu nome Marco Aurélio Maltez Branco, mas até eu não sei porquê optei pelo anonimato. Devia ter receio de estar a me expor aos outros ou não pensei no momento em que criei o meu blogue que mais tarde ou mais cedo descobriram quem eu era pela minha autobiografia... Porque é a história de vida que nos diferencia dos outros, mesmo que existam pessoas com o mesmo nome.
Mas volto a dizer-lhe que a culpa não é sua, que até os poetas~ só se conhecem pelas suas obras e o seu sentir únicos.
Agora que sabe o meu nome verdadeiro, fica a saber que o Marco Poeta sou eu e quando quiser mostrar os meus poemas a alguém é com o meu nome que daqui para a frente são assinados.
Fico-lhe grato e pode continuar a tentar ajudar-me. Os meus poemas sõ estão publicados aqui no lerparaver e como sabe este site é dedicado às pessoas com deficiência e seria impossível que outro Marco sem deficiência escrevesse os poemas que para si são belos e cheios de significado.
Fique descansada.
Beijinhos

pensei que esta mensagem que voce postou dizendo estar triste, talvez fosse por alguma destas coisas que fiz, nunca tive esta pretensão, que bom que entendes isto. Eu admiro muito seu talento, suas poesias são ótimas
beijinhos pra voce tambem