Quando fui para casa

É incrível... Na sexta-feira, quando apanhava o primeiro autocarro para ir para a Batalha (o primeiro ia até à Cordoaria), assisti a uma cena que me deixou arrasada. Como é possível?
Pela voz, pelo andar, sem ser preciso falarem comigo eu consigo ver o sofrimento de cada um. E na Sexta-feira adivinhei logo o sofrimento enorme de um senhor. Não vos posso dizer se é idoso, mas em princípio era.
Com duas moletas, mal podendo com as pernas... e ninguém lhe cedia lugar! ninguém! como é possível? a mim já me fizeram o mesmo. O lugar de uma pessoa deficiente, idosa, grávida é na frente. Acontece que muita gente é invejosa, arrogante e não sabe olhar para o símbolo que está bem à vista.
E outra coisa que me admira! como é possível que pessoas que não podem, porque não têm tanta genica como antigamente cedem o lugar mais facilmente? ponho-me a reflectir nisto e fico demasiado magoada com a sociedade que me rodeia.
Fiquei tão arrasada... uma pessoa da minha idade não cedeu o lugar a quem precisava! e estava no lugar da frente... queria ser eu própria a ceder o lugar, mas não me deixaram, porque havia lá uma jovem que não precisava tanto do lugar da frente como eu. Mas eu apenas tinha uma bengala porque sou cega! ele tinha duas... enfim saí do autocarro mais morta que viva. Sabia que isso acontecia comigo, aliás, mais do que uma vez. Isso em certa forma revolta-me, porque olham, mas não dão uma mão para ajudar, nem dizem qual o lugar que está livre... até que uma vez isso aconteceu e aqui está um exemplo! uma pessoa idosa levantou-se e foi refilar com a jovem, que não me queria ceder o lugar. eu pergunto como é possível?! os que mais precisam são os que mais depressa cedem um lugar, nos estendem a mão... é revoltante, não acham? Eu, que sou uma pessoa demasiado transparente digo-vos isto com toda a sinceridade e disse-o à frente destas pessoas sem escrúpulos, se é que eu posso chamar assim... considero-me demasiado frontal, mas não vou, nem por nada deste mundo mudar de atitude. muitos não gostam, mas paciência. acho que tem de haver alguém que diga destas verdades que ninguém quer ouvir. Olhem, sinceramente... sou cega total, como é que eu consegui sentir na pele o sofrimento daquele pobre homem e cinquenta e tal pessoas não conseguiram? como?! às vezes gostava de não ter tanta sensibilidade. gostava de ser como mostro. macambúzia, brusca. Por vezes ajudava-me. Mas aquilo que mostro de ser refilona, de mandar tudo pelo ar, por dentro não o é. Infelizmente ou felizmente. Digo o que sinto... se calhar por apreciar demasiado as coisas. há tanta coisa acumulada aqui dentro... a começar por coisas que não posso revelar... e a acabar nestas porcarias que ainda me revoltam mais do que eu já sou. Demais... bolas! demais.
Na altura estava indignada. Quis ceder o lugar, tive o conhecimento imediato que havia uma pessoa mais ou menos da minha idade ao meu lado esquerdo... o professor de mobilidade não me deixou levantar... mas mesmo à frente dele, à frente daquela jovem explodi imediatamente. Estava com uma vontade... ao fim até disse que não me arrependia de ser assim. Se não gostavam do que eu estava a dizer era sinal de que havia qualquer coisa dentro, denominada por consciência que começava a trabalhar (se é que a tinha)! fui dura até demais. Mas olhem... fiquei tão aliviada por deitar cá para fora o que tudo... parecia outra. até o coração não pesava tanto. estou farta de comer e calar, sofrer e calar, ver outros sofrer calados... farta.
E mais uma vez vos peço desculpa... se fui demasiado brusca nas palavras. Mas esta minha alma está a precisar disto tudo. De explosões, de frontalidades, de tudo.. quando é que isto acaba?
Sabem, eu também sofro com este meu feitio! Não é fácil. sofro muito com o meu feitio "difíc~il". Mas que hei-de fazer? pensam que eu não sofro por ser assim, às vezes até porque faço sofrer uma pessoa com estas minhas réplicas? e por vezes queria ser outra. Mas para quê? para quê? ainda assim tenho pessoas que não me aceitam como sou... não vou denominar onde e quem. É demasiado doloroso dizê-lo. É demasiado doloroso saber que há certas pessoas que convivem comigo que falam com directores muito amigavelmente e depois... depois... enfim... desculpem mais uma vez... mas é mesmo assim como imaginam. acho que não mereço, mas paciência. vou ter de ser um verdadeiro braço de ferro. mas eu não sou de ferro, caramba! como, calo, calo, como... e tudo à minha volta parece gozar com minha cara, parece que me culpa até de ter vindo ao mundo... mas se vim é para cumprir alguma missão. ainda não sei qual, mas começo a ter certezas que vim para abrir os olhos a alguns estúpidos.
Isto um dia acaba. (?) quem me dera que fosse o mais depressa possível!
Este episódio do autocarro acontece em todos os lados. isto não está adaptado para pessoas que sentem como eu o sofrimento de outros... cada vez acredito mais nisso. Mas vou acabar aqui. Hoje só saem coisas assim deprimentes. é aquilo que sinto... por isso acabo, na esperança de na próxima vez escrevo algo como "está a chegar a Primavera!"

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